Introdução
O objetivo do
livro é mais que provocar reflexões. O
Quadro Negro da Educação não pretende consertar nem corrigir nada, mas
incomodar, pois, só pensamos, refletimos e agimos quando nos sentimos
incomodados com alguma coisa.
A humanidade
só buscou novos horizontes superando obstáculos e ultrapassando barreiras e
fronteiras porque se sentiu incomodada com a situação que se encontrava,
portanto, buscou superar suas necessidades rompendo seus limites, criando meios
para viver mais comodamente e acabou se acomodando demais.
Não
pretendemos ensinar como se deve ensinar porque também não sabemos, mas só
aprendemos quando eliminamos os bloqueios que nos impedem de aprender. Como
escreveu o mestre Guimarães Rosa: “Mestre
é aquele que continua sempre aprendendo”.
Antes de
iniciar a leitura desse livro o leitor deve se desligar de sua profissão,
principalmente o professor. É preciso tirar a máscara, o “guarda-pó”, despir-se
do figurino de professor, esquecer as correntes pedagógicas que defende, tirar
o rótulo de educador para se livrar dos obstáculos que o impedem de compreender
e aceitar propostas e novas idéias antes de conhecê-las e analisá-las.
A posição do
professor é de sempre rejeitar, opor-se a qualquer texto que critique sua
postura em sala de aula e dentro da escola. A proposta do livro não é a de
criticar a postura do professor, mas observar o conjunto em que está inserido e
como se relaciona com as situações educacionais.
Para crescer é
preciso analisar as propostas, descartar as ineficazes e assimilar as eficazes.
Mas como saber quais as propostas eficazes se não conhecermos e experimentarmos?
Inovações e
mudanças não são aceitas pelas pessoas com facilidade, pois muita gente não
está tão receptiva. É difícil aceitar que somos falíveis, sensíveis, mutáveis,
humanos e muitas vezes responsáveis por muitos erros. É mais fácil apontar o
dedo e culpar “alguém”.
Só poderemos
consertar algo ou melhorar nossa condição de trabalho quando aceitarmos que
também fazemos parte do processo de melhoria e desenvolvimento da educação e da
sociedade.
Muita gente
mascara a realidade da escola. Quem está na escola e não fala como ela é de
verdade, sofre sua pressão.
Ninguém conta
o que realmente acontece dentro de uma instituição como a escola por medo de
punição ou por cumplicidade. Todos escondem a realidade, a verdadeira
realidade.
Não estamos
falando de criticar a escola por criticar, pois não resolve os problemas da
educação nem os do professor.
Quando
criticamos só por criticar a instituição que estudamos ou trabalhamos estamos
também condenando nosso futuro. Se dissermos que estudamos numa escola ruim,
significa dizer que tivemos uma formação ruim. Se apresentarmos nosso currículo
a uma empresa, o entrevistador poderá perguntar se estudamos naquela escola
ruim. E se estudamos numa escola ruim, pode ser que sejamos profissionais ruins.
Se trabalhamos
numa empresa – no caso escolas – e criticamos nosso trabalho, nossa função,
nossos colegas – funcionários, diretores, etc. – apenas por criticar, também
estamos nos condenando e nos taxando como professores ou funcionários ruins,
pois somos membros daquilo que criticamos. Por isso, cuidado com o que se
critica.
Sabemos que
não é fácil ser professor, mas para quem acredita que é tão ruim ser professor
é melhor mudar de profissão, pois quem vive fazendo o que não gosta, nunca
poderá ser feliz nem pode progredir na profissão. Se for bom ser professor
porque reclamar tanto? A reclamação torna-se um vício. Habitua-se a reclamar
dos alunos, dos diretores, do governo, da família, da vida.
Não
pretendemos julgar o professor, nem culpá-lo pelo fracasso da Educação.
Entendemos que o maior problema da Educação é puramente político. Educação é um
ato político, mas deve ter autonomia para se livrar dos politiqueiros que se
declaram defensores da educação e apenas querem desviar sua verba.
Acreditamos
que o único responsável por uma boa educação e capaz de satisfazer as
necessidades das escolas e de seus envolvidos é o professor porque é quem pisa
no chão da escola.
Acreditamos
também que o professor precisa capacitar-se mais para acompanhar as mudanças da
sociedade porque os alunos não são os mesmos de antes e não adianta lamentar
que antigamente era assim ou assado, pois estamos no presente e o professor
deve lecionar para o aluno do presente, mesmo que este aluno não esteja tão
presente na sala de aula.
Nem o melhor
professor do mundo consegue “ensinar” se o aluno não quer aprender. O aluno só
aprende o que quer. Não aprende mesmo com o melhor professor se não quiser
aprender. Mas o aluno aprende mesmo com o pior professor se tiver vontade de
aprender.
O melhor
professor só é o melhor porque tem os melhores alunos.
O melhor
professor é VOCÊ!
Boa aula, digo, boa leitura.
Educação
Os educadores,
os pensadores e os educadores-pensadores de todos os tempos – milhares ao longo
do tempo – nem sempre concordaram quanto aos objetivos reais da Educação.
Afinal, qual é a finalidade da educação, o que é educação?
Para
Aristóteles, a
finalidade da educação é o bem moral, no qual consiste a felicidade, definida
por ele como a plenitude da realização do humano no homem. Três coisas
concorrem para essa realização: natureza, hábito e razão. A primeira nos é
dada, mas pode ser modificada pelo hábito, que por sua vez, deve ser dirigido
pela razão. Mas é preciso que as três coisas se harmonizem embora o elemento
racional deva sempre prevalecer.
Platão valorizava os métodos de debate e conversação como formas de alcançar o
conhecimento. De acordo com Platão, os alunos deveriam descobrir as coisas
superando os problemas impostos pela vida. A educação deveria funcionar como
forma de desenvolver o homem moral. A educação deveria dedicar esforços para o
desenvolvimento intelectual e físico dos alunos. Para os alunos de classes
menos favorecidas, Platão dizia que deveriam buscar um trabalho a partir dos 13
anos de idade. Afirmava também que a educação da mulher deveria ser a mesma
educação aplicada aos homens.
Já no século
XVII, Comenius o
criador da Didática Moderna concebeu uma teoria humanista e espiritualista da
formação do homem que resultou em propostas pedagógicas hoje consagradas ou
tidas como muito avançadas. Entre essas idéias estavam: o respeito ao estágio
de desenvolvimento da criança no processo de aprendizagem, a construção do
conhecimento através da experiência, da observação e da ação e uma educação sem
punição, mas com diálogo, exemplo e ambiente adequado.
De
Jean-Jacques Rousseau, veio
a idéia de que a educação é vida; deve centralizar-se na criança, encontrando
sua finalidade no indivíduo, em cada estágio particular de sua vida. Não há em
Rousseau a preocupação de “formar a criança”, mas a de permitir que “a criança
se forme”.
Johann
Heinrich Pestalozzi, foi
quem aprimorou esse conceito de Rousseau. De Pestalozzi veio a idéia de que o
trabalho educativo eficiente depende do conhecimento atual da criança e de uma
genuína simpatia por ela; que a educação é um crescimento de dentro para fora e
não uma série de acrescentamentos de fora para dentro; que este crescimento é o
resultado das experiências ou atividades da criança; logo, são os objetos, não
os símbolos que devem formar a base do processo de instrução; que as percepções
sensoriais e não os processos da memória formam a base da primeira educação.
Johann
Friedrich Herbart, contribuiu
com a idéia de um processo científico de instrução a que chamou “instrução
educativa”; a base científica de organização do currículo, e a idéia da
formação do caráter como alvo da instrução, a ser alcançado cientificamente por
meio do uso de método e de currículos definidos.
Friedrich
Froebel defendeu os chamados “métodos ativos” da Escola Nova. Dele veio a verdadeira
concepção da natureza da criança; a correta interpretação de que o ponto de
partida da educação está na tendência da criança para a atividade; a verdadeira
interpretação do currículo como representação para a criança da experiência do
mundo ou da herança da cultura e da raça; e em geral, a primeira, e talvez a
mais completa aplicação da teoria da evolução ao problema da educação.
John Dewey não aceita a educação pela instrução proposta por Herbart, propondo a educação
pela ação; critica severamente a educação tradicional, principalmente no que se
refere ao intelectualismo e a memorização. Para Dewey a educação tem como
finalidade propiciar à criança condições para resolva por si própria os seus
problemas, e não as tradicionais idéias de formar a criança de acordo com
modelos prévios, ou mesmo orientá-la para um porvir.
Jean Piaget revolucionou as concepções de inteligência e de desenvolvimento cognitivo
partindo de pesquisas baseadas na observação e em entrevistas que realizou com
crianças. Piaget fez pesquisas sobre as
características do pensamento infantil com crianças francesas e também com
deficientes mentais. De acordo com suas teorias, o professor não deve
apenas ensinar, mas sim e antes de tudo, orientar os educandos no caminho da
aprendizagem autônoma. Para Piaget o principal objetivo da educação é
criar indivíduos capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que
as outras gerações fizeram.
Lev S.
Vygostsky construiu
sua teoria tendo por base o desenvolvimento do indivíduo como
resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da
aprendizagem nesse desenvolvimento, sendo essa teoria considerada
histórico-social. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. A cultura fornece ao indivíduo os sistemas simbólicos de
representação da realidade, ou seja, o universo de significações que permite
construir a interpretação do mundo real. Ela dá o local de negociações no qual
seus membros estão em constante processo de recriação e reinterpretação de
informações, conceitos e significações.
Para Paulo Freire,
vivemos em uma sociedade dividida em classes, sendo que os privilégios de uns,
impedem que a maioria, usufrua dos bens produzidos e, coloca como um desses
bens produzidos e necessários para concretizar a vocação humana de ser mais, a
educação, da qual é excluída grande parte da população do
Terceiro Mundo. Refere-se então a dois tipos de pedagogia: a
pedagogia dos dominantes, onde a educação existe como prática
da dominação, e a pedagogia do oprimido,
que precisa ser realizada, na qual a educação surgiria como
prática da liberdade.
Muitos outros
filósofos, educadores e pensadores contribuíram para o avanço da educação, mas
até agora não definimos o que é educação e qual sua finalidade. Com todas as
definições e interpretações existentes, variadas e distorcidas ainda
enfrentamos a dificuldade de exercer a função de educador e rastejamos em pleno
século vinte e um, no terceiro milênio depois de Cristo, na busca de uma
resposta, ou várias respostas a essas perguntas: o que é EDUCAÇÃO e qual sua
FINALIDADE?
Educação e sua finalidade
Já
ouvimos muito frases como: “Sem Educação
e Cultura um país não se desenvolve”, ou
“Um país não chega ao ‘Primeiro Mundo’ se não investir na Educação” e a
mais usada por políticos-politiqueiros: “...porque
os jovens são o futuro da nação...”.
Educação
vem de educar, do latim EDUCARE (extrair, revelar, descobrir). Na teoria
significa tanta coisa que na prática ninguém sabe o significado.
Na
escola os professores perguntam aos alunos se os pais não deram educação, pois
chegam às escolas mal-educados. Em casa os pais perguntam aos filhos se não
aprenderam educação com os professores. Os educandos ficam com várias
interrogações, pois não sabem de quem é a obrigação de ensinar educação. E como
cobrar algo de alguém se esse alguém não sabe o que é aquilo que se cobra?
Muitas vezes nem mesmo quem cobra educação sabe o que é essa tal educação.
Quando
dizemos educação nos referimos, não só a que em geral se ministra nas escolas,
como, principalmente, a que recebemos em casa.
Educar,
no sentido etimológico do verbo, quer dizer: trazer de dentro para fora. Revelar
o que há por dentro. Educar é desenvolver potencialidades. Portanto, a educação é a ação semelhante ao
parto, como dizia Sócrates. A mãe dele, Fenareta, era parteira. Então, dizia
esse filósofo, “ao tempo que minha mãe
faz partejamento de bebês, eu o faço de idéias e conhecimentos”.
Pais
e professores são mestres, educadores, ou seja, professores responsáveis pela
revelação do conhecimento, trazendo-o de dentro dos educandos para fora.
Esse
método, utilizado por Sócrates é designado por maiêutica e consiste em levar o
educando a responder suas próprias perguntas, pois acredita-se que já saiba a
resposta.
Para
Platão, o processo de aprendizagem deve despertar no aluno o conhecimento, ou
seja, aprender é um despertar.
Jesus
Cristo afirmou que “o Reino de Deus está dentro de nós mesmos”, sugerindo
que o conhecimento não é algo exterior, mas interior, vem de dentro do homem.
Certamente
o mundo exterior, o meio em que vivemos é fundamental para a construção do
conhecimento, mas, segundo Sócrates, Platão, Khalil Gibran, Jesus Cristo, o
homem deve buscá-lo em seu interior.
Neste
caso, pais e mestres, que tentam educar pela imposição de modelos, se dão mal.
Porque os modelos vêm de fora, e a educação, de dentro. É preciso equilibrar a
potencialidade do conhecimento interior do ser humano com o mundo exterior, com
o meio.
Na verdade o
problema está na relação entre a sociedade e a escola. O reflexo de crises
sócio-econômicas provoca mudanças comportamentais aliadas às mudanças que
ocorrem com a evolução e a revolução da humanidade.
Qual, então, a
verdadeira função de educadores, pais e mestres?
A Escola
A
escola é o lugar onde se faz amizades, se constroem conhecimento e se
relacionam seres humanos. E todo lugar assim está sujeito à intriga,
mesquinharia, inimizade, inveja, desentendimento, discórdia, confusão. Mas tudo
isso é superado pela força da amizade e companheirismo entre os pares que atuam
na escola. Desde que estejam dispostos e comprometidos a construir um “espaço”
melhor e torná-lo num ambiente agradável e saudável.
A
escola é muito mais que armazéns ou depósitos de informações muitas vezes
inúteis. Muito mais do que Assistência Social ou Posto de Saúde. Ela também
socorre educandos que se machucam e aqueles mais necessitados e carentes de
afeto, roupa, alimento e puxão de orelha.
A
escola é liberdade, autonomia, ousadia. Mas precisa de alforria. Precisa romper
os grilhões da politicagem que usam demagogicamente seu discurso em benefício
próprio, mas não estão preocupados com o destino daqueles que freqüentam a
escola.
A
escola é responsável por formar e acolher o filho do empreendedor, do
empresário, do estadista, do comerciante, do professor, do lavrador, do
policial, do vereador, do prefeito, do faxineiro, do gari, do presidiário, do
desempregado, enfim, em geral, a escola recebe todos que queiram freqüentá-la, ou
que seja obrigado a permanecer em seu recinto.
Escola
é o espaço dos conflitos, da dinâmica e do comodismo social. Da desigualdade
social e da diferença cultural, racial e financeira.
É lugar de
alegria e de tristeza. De acolhimento e desabrigo. De inclusão e exclusão. De
quem sabe muito e de quem pensa que sabe alguma coisa. É lugar de contradições.
O Aluno
Meu primeiro
dia na escola como aluno, na pré-escola, foi assustador. Tive que me separar de
minha mãe, mas não chorei nem fiz escândalo, fiquei triste, pois havia a minha
frente um mundo novo a enfrentar, longe do aconchego e da proteção do lar.
Muitas crianças diferentes e estranhas. Umas mais calmas outras muito agitadas
e assustadoras. Adultos com cara fechada, pareciam furiosos com alguma coisa,
talvez com a presença das crianças. Era uma escola administrada por madres e
chamava-se “Casa das Crianças”, em Bragança Paulista.
Hoje é uma escola particular e tem outro nome.
No decorrer do
ano fui me acostumando àquela nova vida. Difícil era encarar o mesmo ritual
todo dia, o ano inteiro. Antes de entrar para a sala de aula fazíamos uma
oração para saudar os professores e iniciarmos bem nosso dia. Entrávamos em fila
para a sala de aula. Na sala a professora distribuía algumas folhas de sulfite
e tínhamos que desenhar qualquer coisa, eu não sabia o porquê daquilo, mas
desenhava alguma coisa e no fim descobria que desenhava sempre a mesma coisa.
No intervalo
sentávamos a mesa no refeitório para nos alimentar. Era sempre uma sopa “horrível”
feita de fubá e verduras. Hoje adoro esse prato, mas uma criança odeia por mais
nutritiva que seja. Se não comesse uma das madres ameaçava com castigos e
“enfiava goela abaixo” aquela “suculenta” refeição, colher por colher. Talvez
por isso odiasse tanto aquela sopa.
Logo após o
intervalo voltávamos para a sala, não me lembro de ter brincado com meus
colegas na pré-escola na hora do intervalo, pode ser que minha memória seja
falha ou pode ser que não tenha brincado mesmo. Na sala após o intervalo a
professora distribuía colchonetes, cobertores e travesseiros para cochilarmos.
Éramos obrigados a dormir mesmo sem sono e quem não dormisse ia conversar com o
diretor que felizmente ou não eu nunca vi e nem sei se existia de verdade. Mas
somente o medo de encarar alguém que nunca vimos e pensamos ser alguém de outro
mundo já arrepia todos os pêlos do corpo.
Tenho poucas
lembranças daquele lugar, não me lembro nem do nome das professoras, mas tenho
a imagem daquelas madres e daquela sopa em minha memória até hoje. Não fiquei
traumatizado, ou talvez tenha ficado, mas hoje adoro sopa e não tenho nada
contra madres.
Na primeira
série do ensino fundamental fui estudar numa escola maior onde freqüentei até a
quarta série. Estava quase alfabetizado, mas ainda tinha muita dificuldade para
ler, e escrever ainda era pior. Sou canhoto e minha letra era horrível, não
mudou muito, mas já leio e escrevo um pouco melhor. A professora queria que eu
escrevesse com a mão direita, tentou muitas vezes para que eu aprendesse, mas
não deu certo, fiquei canhoto.
Da primeira à
quarta série tive muitos amigos maravilhosos que hoje nem sei se estão vivos.
Lembro-me da professora Célia da terceira e quarta série, foi a professora mais
querida naquela escola. O diretor era muito temido pelos alunos, senhor
Antonio, um homem alto, magro, bravo, sério, “feio” e rígido. Bastava uma
peraltice e o senhor Antonio dava um tapa na bunda do aluno. O tapa estalava na
bunda, ecoava pela escola inteira e todos os alunos sentiam - e gritavam “ai” em pensamento – por causa do tapa dado pelo diretor. Poucos se
atreviam desafiar as regras da escola.
Entrávamos
em fila na sala de aula após uma oração universal desejando saúde, paz e sabedoria
a nossas mestras e aos alunos. Uma vez por semana cantávamos o hino nacional e
antes de iniciarmos a aula já dentro da sala fazíamos outra oração para
agradecer por mais um dia de vida entre outras coisas.
A
sopa servida na hora do intervalo não era obrigatória, “graças a Deus”. Eu
levava lanche de casa para não encarar a sopa. Vários amigos sentavam-se juntos,
juntávamos os lanches e dividíamos tudo, era um pic-nic, um verdadeiro
banquete.
Adorava
aquela escola, era apaixonado por ela e pelas professoras. Mas o que mais me
fascinava lá eram as peças de teatro. Sempre tinha teatro na escola. As peças
eram montadas pelos alunos mais velhos. O figurino, o cenário, os personagens, as
luzes, as músicas, eram tão reais e fantásticas que eu viajava. Isso nunca
esquecerei.
Uma
vez por semana o padre Aldo Bolini ou o padre Donato Vaglio, com que fiz a
Primeira Comunhão, entravam na sala de aula para “catequizar” os alunos
católicos e prepará-los para a Primeira Comunhão. Eu gostava mais do padre
Donato porque era “mais bonzinho” e carismático, o padre Aldo era muito bravo e
dava cascudos na cabeça dos alunos que não acertavam as respostas das perguntas
que fazia. Porém, sobrevivi. Foram quatro anos maravilhosos estudando na Escola
Estadual Coronel Francisco de Assis Gonçalves de onde até hoje tenho boas
lembranças e saudades.
A
partir da quinta série fui estudar na Escola Estadual Cásper Líbero, onde
cursei até o terceiro ano do ensino médio. Estudei no prédio antigo onde mais
tarde passou a funcionar a Diretoria Regional de Ensino de Bragança Paulista.
Nunca
fui um excelente aluno, sempre tive dificuldades em expressar-me em público,
era tímido, quieto, mas tinha muitos amigos e sabia respeitar meus professores.
Mas também conversava um pouco durante a aula.
Cursei
a sétima série duas vezes, o primeiro ano do ensino médio duas vezes, mas
“consegui” concluir o ensino médio. Depois cursei a faculdade.
Na
Cásper Líbero o que mais adorava além dos professores, especialmente algumas
professoras que nos apaixonamos quando somos adolescentes, dos amigos e das
meninas, era a biblioteca. Aquela sala enorme cheia de livros novos e velhos,
repletos de histórias interessantes e fascinantes. Sinto o cheiro dos livros
até hoje. Depois que passei a me interessar pela leitura, descobri um mundo
mágico. Devorava os livros. A bibliotecária, permitia que eu pegasse de três a
quatro livros por semana. Lia um por noite. Gostava mais dos livros de
aventura. Todo livro é uma aventura. Gostava de todos.
É
muito tempo dentro de uma escola. Passamos boa parte de nossa vida na escola. É
uma fase importante. Muitas vezes não sabemos disso e só valorizamos décadas
depois. Assim são os alunos.
Somos todos
alunos na escola da vida. Se não estamos matriculados como alunos numa
instituição de educação, estamos aprendendo com a vida as lições que esta nos
ensina.
Desde que
nascemos vivemos em constante e profunda aprendizagem. Primeiro com os pais –
principalmente a mãe – depois com os demais membros da família, os parentes e
amigos que nos cercam e então com a escola onde ampliamos a relação social e
aprendemos coisas estabelecidas por professores conforme a legislação impõe,
obriga, exige porque legisladores entendem que sejam importantes para a
sociedade.
O aluno é um
ser vivo capaz de interpretar o mundo a seu redor e vivê-lo com emoção. No
início de sua vida escolar é como uma pedra preciosa a ser lapidada e com o
tempo as impurezas vão desaparecendo e fica apenas a pureza da jóia com um
brilho fascinante.
Ao chegar à
escola o aluno está curioso para conhecê-la, saber quem serão seus professores,
interessado em desenvolver atividades propostas por seus mestres.
No primeiro
dia de aula são tantos assuntos sobre as férias, a ansiedade de contar tudo de
uma só vez, conhecer novos amigos, paqueras, enamorados.
O aluno é um
ser que busca decifrar o mundo para que possa entendê-lo melhor. Busca através
do conhecimento ser feliz.
O Professor
Ser professor
é ser incomum, singular, impar. Suas qualidades estão além do que pode
imaginar. É ser amado e odiado ao mesmo tempo, mais amado que odiado,
felizmente. É ser moderno e arcaico simultaneamente. É estar certo e errado
concomitantemente. É ser mestre e discípulo na mesma tautocronia. É ser herói e
vilão com o mesmo sincronismo. É ser “legal e chato” ao mesmo tempo. Ser
professor é ser mortal e imortal.
Meu primeiro
dia numa sala de aula como professor foi emocionante. Semelhante a um orgasmo,
sem exagero, êxtase total.
Alguns anos de
faculdade preparando-me para lecionar criaram um ideal platônico – talvez todo
ideal seja platônico – um desejo profundo de entrar numa sala de aula e “dar
aula”. É o sonho de todo professor, professorar, ensinar, ministrar a
disciplina que estudou para lecionar. Ser formador de opiniões, revolucionar a
educação e a sociedade.
São tantos
sonhos, tantas ilusões, desejos, ideais, esperanças, crenças e fantasias. É
como ser adolescente e estar apaixonado. Ser professor é ser apaixonado, é
estar apaixonado, é sentir muito tesão pela função que ocupa, é ser e estar
viciado e dependente – física e quimicamente – de escola, de alunos, de
desafios e de encrencas.
Meu primeiro
dia foi excitante, como o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro carro,
a primeira moto… a primeira carraspana. Foi
a realização de um sonho.
Ser chamado de
professor, senhor, mestre, mesmo com pouca idade, pouco mais velho que os
alunos, é uma experiência inexplicável, inigualável, sem comparação, não existe
situação semelhante, só sentindo na pele para entender a sensação.
É preciso
vestir o “guarda-pó”, pegar estojo, apagador e giz, entrar numa sala de aula de
verdade cheia de alunos de verdade e “encarar” cada um nos olhos. Isso é ser
professor.
A escola de que se fala e a escola de que se sofre
Para
continuar este ensaio é preciso esclarecer que vivenciamos duas realidades a
respeito da escola público-estatal no Brasil: a escola de que se fala e a escola de que se sofre.
A
escola de que se fala – estadual e municipal, ou seja, estatal – é aquela que a
propaganda oficial governamental veicula na mídia, muitas vezes exagerada,
outras equivocada. A propaganda oficial das instituições governamentais mostra
escolas que recebem equipamentos de última geração para apoiar o trabalho docente
e melhorar a aprendizagem. Os professores são bem remunerados e capacitados, os
educandos são bem educados e comportados, sem nenhum problema sócio-econômico.
As estatísticas sempre comprovam os bons resultados. Mas
será que podemos confiar nas estatísticas?
A escola
existe nos papéis, muitas vezes não funcionam tão bem na realidade. Algumas
escolas de papéis nem existem de verdade, servem apenas para captar verbas da
Educação que nunca chegam à escola de papel porque não existe escola. Esta
verba então vai para o bolso de “ALGUÉM”.
A
escola de que se sofre é aquela que existe na vida real e não nos contos, é a
escola que reprime, oprime, emburrece, omite, castra, e contribui com a escola
de que se fala – a escola de papel -, é cúmplice dela, pois sofre calada e não
denuncia as falhas existentes no sistema educacional e ainda recebe acusações
de ser responsável pela falência da sociedade.
Na
escola de que se fala, na escola da propaganda, a escola é ideal, é perfeita,
recebe todos os livros didáticos solicitados, os alunos são educados, usam
uniformes e vão à escola para estudar, sentem prazer em freqüentar a escola. Os
professores adoram lecionar, os pais participam das reuniões e contribui para a
organização da escola, o governo (federal, estadual e municipal) através das
secretarias de educação conhece a realidade das escolas instaladas em prédios
novos, sadios, seguros e conservados.
Na
escola de que se sofre a realidade é oposta: os livros didáticos recebidos são
sempre outros, quase nunca os escolhidos, os alunos são educados, mas também
rebeldes e são reais, não ideais, muitos alunos vão à escola contra a própria
vontade, porque o Conselho Tutelar visitou seus responsáveis e exigiu a freqüência
porque sem presença na escola não recebem bolsa-escola, bolsa-família ou outros
“auxílios doados” pelo Estado. Há muitos casos de famílias que usam o dinheiro
“doado” pelo governo para depositar créditos no telefone celular, pois sabem
que receberão cestas básicas e roupas doadas por igrejas e vizinhos que pensam
que estão ajudando. Muitos alunos não usam uniformes, não prestam atenção nas
aulas, estão presentes na sala de aula apenas fisicamente, mas as mentes estão
em outra dimensão. Os professores são muitas vezes ofendidos, desacatados,
desvalorizados, humilhados, ameaçados e até agredidos por alunos ou pais de
alunos e até por colegas de trabalho.
Na
escola de que se sofre muitos pais não participam das reuniões na escola e nem
sabem a série que o filho está matriculado ou cursando, quando está cursando.
Alguns prédios escolares estão sucateados, pichados, depredados, localizados em
terrenos superfaturados e inadequados para uma escola, como beira de rios,
brejos, barrancos.
A
escola de que se fala existe apenas no papel porque na realidade o que
vivenciamos é a escola de que se sofre.
A escola de que falamos
A
escola de que falamos é a escola de papel. A escola do governo, aquela que
aparece na televisão toda equipada e preparada para receber todos os tipos de
alunos das mais variadas etnias, credos, classes sociais e deficiências. É uma
escola estruturada, projetada para acomodar alunos e professores de maneira
confortável e agradável. É uma escola com salas de aula construída com material
acústico para absorver o excesso de barulho e permitir a boa audição durante a
exposição do professor. As salas de aula também possuem isolante térmico para que
fique “quentinha” no inverno e “fresquinha” no verão. A iluminação é excelente
e permite a boa visão para que os alunos possam ler, escrever e estudar sem que
seus olhos sejam prejudicados por falta de iluminação. Na escola de que falamos
existe biblioteca de verdade - e não somente sala de leitura sem livros e sem
leitores - e muitos livros a disposição de alunos e de professores com
bibliotecário formado e capacitado para organizar os livros e orientar os
leitores. O prédio escolar está sempre instalado nos terrenos mais caros em
bairros “nobres” de alto valor imobiliário para valorizar mais a escola e seus
“usuários”.
Os
professores da escola de que falamos, a escola de papel, são intelectuais
preocupados com a formação de cidadãos e a transformação da escola em centro de
produção de saber. Sempre trabalham em equipe, cooperam entre si para o bom
funcionamento da escola e sempre tem apoio de diretores, supervisores e
secretários de educação. Os professores estão sempre motivados pelo alto
salário, pelo prêmio que recebem anualmente em forma de bônus como incentivo
para que trabalhem cada vez mais pela educação.
Os
alunos são sempre dedicados, estudiosos, uniformizados e conseguem os melhores
resultados em todas as avaliações internas e externas justificando o ingresso
de muitos nas universidades federais e estaduais, ou seja, aquelas que o aluno
não paga. O aluno não paga para estudar desde o ensino infantil até o ensino
universitário. Recebe todo material necessário para seus estudos e são
preparados pelos melhores professores.
A escola de que sofremos
A
escola de que sofremos é a escola real que existe fora do papel, no concreto
mesmo. É a escola construída de bloco de cimento – com orçamento superfaturado
-, com salas apertadas, abafadas no verão e geladas no inverno causando
desconforto, incômodo e mal-estar. O som se espalha pela escola toda
atrapalhando a aula da sala ao lado, pois não há acústica adequada para isolar
o barulho e permitir uma audição agradável. A iluminação é precária, muitas
vezes funciona apenas metade das lâmpadas porque a outra metade está queimada.
A
maioria das escolas não possui biblioteca, mas depósito de papéis – livros
velhos e embolorados – estragando ou calçando armários. Quando tem uma pseudo-biblioteca
esta não pode ser chamada assim por não ter um bibliotecário formado para
organizá-la, portanto é chamada de sala de leitura e quem cuida dela é sempre
um professor readaptado que muitas vezes apesar da boa vontade, sofre por não ser
capacitado para exercer tal função.
A
escola de que sofremos recebe alunos de várias etnias, credos, classes sociais
e deficiências, mas não está preparada e adaptada para recebê-los.
As
salas de aulas são superlotadas com quarenta e até cinqüenta alunos por sala.
A
escola é construída em terrenos a beira de rios, brejos, barrancos, terrenos de
menor valor imobiliário em bairros de moradores pobres – para atender famílias
carentes claro.
Os
alunos são indisciplinados, barulhentos, muitos não usam uniforme escolar, não
carregam materiais – livros, cadernos, canetas, etc. - pois acham pesados
demais. Freqüentam a escola porque são obrigados por lei e assim recebem
benefícios do governo como: bolsa escola, bolsa família, bolsa..., mas utilizam
tais benefícios para depositar crédito em aparelhos de celular, comprar bala e
chicletes e outras guloseimas.
Na
escola de que se sofre depois do processo de municipalização, os prefeitos usam
o dinheiro da Educação para outros fins, menos para a melhoria da Educação.
Muitos funcionários são contratados sem ter qualificação. São cabos eleitorais,
parentes, amigos, amantes. Certamente existem muitos funcionários que são
eficazes e fazem jus ao cargo que ocupam, mas são poucos. Os diretores não
podem reclamar da péssima qualidade das escolas porque ocupam cargo de
confiança.
Existem
muitas escolas boas nas redes municipais de educação, felizmente a maioria, mas
existem muitas que deixam muito a desejar por causa da politicagem.
De forma
geral, os professores não são unidos. Reclamam o tempo todo dos alunos, da
direção, da secretaria de educação, do governo, do salário, de tudo e mais um
pouco.
Muitas
pessoas – diretores, vereadores, prefeitos, deputados, governadores e até
professores - mascaram a realidade das escolas.
Os
professores – com muitas exceções – criticam a escola, a educação, os
dirigentes, reclamam dos HTPC´s, das avaliações, dos projetos da Secretaria de
Educação, mas quando estão diante do Diretor, da Secretária de Educação, do
Prefeito, do Governador, sorriam e fazem fila para cumprimentá-los e
abraçá-los. São hipócritas também os professores que agem assim.
Existe vida pós-sala de aula?
Muitos
professores reclamam das condições de trabalho, do baixo salário, do abuso de
poder dos diretores, da falta de respeito dos alunos, da falta de reconhecimento
da sociedade, da falta de investimento adequado do governo. As queixas são
diversas. A insatisfação dos professores é grande. Muitos acreditam que suas
vidas se desgraçaram. O pior é que com tanta reclamação e falta de esperança,
os professores que sofrem ainda continuam sofrendo e reclamando e não deixam o
magistério por falta de opção e até por falta de competência e habilidade para
atuar em outras áreas.
Confesso que
fiquei mais triste após alguns anos em sala de aula. Era mais alegre, disposto.
Deve-se considerar que estou mais velho, mais maduro, desgastado, chato e
rabugento. Talvez seja a “síndrome do professor”, ser chato e rabugento. As
dificuldades pessoais, familiares, profissionais, financeiras, agravam os problemas.
Não podemos culpar os alunos, nem os pais e nem mesmo o governo. É um conjunto
de fatos que constroem situações agradáveis e também desagradáveis.
É
verdade que muitos professores não se esforçam para melhorar a aula nem
colabora para a melhoria do ensino, mas a maioria participa, luta, batalha para
construir uma escola melhor, uma escola ideal, a escola de que falamos.
Na
escola de que falamos, os professores estão felizes, sorridentes e contentes
com o que ganham e acreditam na vida pós-sala de aula. Mas na escola de que sofremos,
os professores só tem uma esperança: a de que o professor não reencarna pois
paga todos os seus pecados na sala de aula e vai direto para o paraíso após a
morte.
O
professor é tratado como um ser descartável. Enquanto serve à escola, à
secretaria da Educação, à comunidade, é útil, é querido. Assim que deixa o
cargo (exonera ou aposenta) é substituído e logo esquecido. É descartável, é
descartado.
O
professor não é descartável, mas para a sociedade burocrática o professor não
passa de um funcionário de papel, alguém que supostamente está ocupando um
cargo em algum lugar do mundo e “ensinando” algo ou qualquer coisa que esteja
de acordo com as leis estabelecidas para que o ensino funcione como deve
funcionar. Para a burocracia estatal professor é apenas número, sai um entra
outro. O que importa é que tenha alguém dentro da sala monitorando os alunos
para que não se matem.
O professor
trabalha o dia todo. Acumula cargo no Estado e no Município. As vezes trabalha
em escola particular também. Leciona para quarenta e cinco alunos em cada sala
das sete horas da manhã e muitas vezes até as onze horas da noite. Como é
possível ser um bom professor? Como é possível que a aula seja maravilhosa todo
tempo? O professor só faz isso porque ganha pouco, ou o que ganha não é
suficiente para sustentar sua família.
No papel o
professor existe e ganha bem, os alunos existem e são educados, a escola
existe, a educação existe, papai-noel existe, coelhinho da páscoa existe...
Mas afinal,
existe vida pós-sala de aula?
Quem não cola não sai da escola
Na
escola de que falamos o aluno não cola, mas na escola de que sofremos muitos
alunos colam. Nem todos os educandos trapaceiam, mas boa parte prefere o risco
de ser punido por estar colando do que ficar com nota baixa por não colar,
afinal, para o aluno que cola e trapaceia, os fins justificam os meios.
Esta crença
está presente entre muitos alunos do ensino fundamental ao ensino superior.
Quantos estudantes já tentaram colar numa avaliação. Muitos conseguiram, outros
foram interceptados pelo professor que tem de ter muitos olhos em dia de
“prova”. Mas quem nunca tentou colar que atire a primeira cola.
Alguns professores
confessaram que colaram em concurso público. Não podemos generalizar, pois alguns
não são todos nem a maioria, mas é muita falta de caráter e contraditório ao
que pregam na sala de aula. Como exigir que um aluno não cole?
Muitas vezes
professores não querem ler ou escrever, então como cobrar dos alunos leitura e
escrita?
O professor
muitas vezes faz atividades paralelas enquanto participa do htpc. Como cobrar
dos alunos quando fazem atividades de outros professores na aula?
Em palestras,
os professores conversam, não prestam a devida atenção, então como cobrar a
atenção e o interesse dos alunos?
Como exigir
que o aluno acredite na Educação se o próprio professor propaga uma imagem
negativa sobre a Educação?
Como cobrar
motivação dos alunos e exigir que não colem se o professor não serve de
exemplo?
Grande
parte dos estudantes acredita que o que aprendem na escola não serve e nunca
servirá para nada, às vezes com razão. Muitos crêem que a única maneira de ser
bem sucedido é colando, é trapaceando, corrompendo a sociedade. Compra-se um
certificado, um diploma e tudo está resolvido. Nem é preciso comprar o diploma
porque o Estado está “doando” para muitos alunos.
Uma
aluna da 7ª série de uma escola estadual tentava colar na avaliação de história quando o professor surpreendeu-a. Como
era de esperar, negou que estivesse colando, e com a cara de pau lustrada com
óleo de peroba disse que estava apenas consultando suas anotações sobre o
assunto da prova. Sem poder argumentar mais, disse que sua mãe havia instruído
para colar, pois quem não cola não sai da escola.
É
difícil acreditar que uma mãe dissesse isso para a própria filha, mas suas
amigas de classe confirmaram o conselho materno. Esta mesma aluna já fora
aconselhada pela mãe a abortar uma gravidez “acidental” e abortou.
O
problema existe e não acabará tão logo, talvez nunca acabe. Muitas vezes o
aluno sente-se inseguro e prefere escrever um resumo do conteúdo num pedaço de
papel, no braço, na calça ou na mesa. O medo de tirar nota “vermelha”, zero, é
tão grande que não pensa nas conseqüências de ser “capturado” pelo professor
que tenta fiscalizar cada um dos candidatos no dia da avaliação. Outros colam
por preguiça de estudar ou pior, acreditam que tudo se resolve sem esforço por
meio de recursos “ilegais”. A conseqüência disso é um ser humano incapaz de
respeitar regras, sem princípios de honestidade, de lealdade, de
responsabilidade e de compromisso com ninguém e com nada. Este ser descobre que
pode ser “bem sucedido” sem esforço.
Ao
preparar uma cola, o estudante está estudando e relembrando o assunto que será
abordado no teste. Na tentativa de elaborar a cola acaba sintetizando o
conteúdo. Isso é bom. Mas quando cola, ele engana o professor. Ao enganar o
professor, indiretamente está enganando seus pais e a sociedade. Quem consegue
enganar alguém e percebe que pode obter lucro com isso também pode querer
enganar outras pessoas com mentiras mais graves e conseqüências mais trágicas.
Um
dia este indivíduo será um profissional e pode querer continuar obtendo
vantagens fáceis enganando e lesando seu semelhante.
Numa
outra sala de aula de 7ª série com 45 alunos – pois esta é a média por sala de
aula nas escolas estaduais do Estado de São Paulo -, 27 foram surpreendidos
colando. Na mesma escola os alunos de outras séries de ensino fundamental e
médio também tentam colar na prova. Para estes alunos, colar faz parte da vida
escolar, é normal.
Seria
falta de caráter dos alunos, falta de instrução e falta de transmissão de
conceitos e valores dos pais? É um vício cultural? É o reflexo da falta de
ética de muitas autoridades e representantes governamentais? Difícil
afirmar com precisão e segurança onde e como começou o problema. Talvez nada disso seja motivo para a falta de
ética. Talvez isso tudo e mais um pouco.
O
problema é o tipo de sujeito que está sendo formado pelas instituições
educacionais. Que princípios as famílias estão transmitindo a seus descendentes?
Que espécie de cidadãos estão compondo a sociedade? Se a sociedade brasileira
for composta por indivíduos sem ética teremos uma sociedade sem ética. Numa
sociedade cujo indivíduo se corrompe, o povo só pode se corromper.
Quem
cola não só engana o professor. Trapaceia. Não tenta aprender, pois sabe que
basta um “jeitinho” e tudo é resolvido. A cola na prova, a identidade falsa, o pagamento
de propinas, o desvio de verbas públicas – da educação e da previdência -, a compra
de votos, o mensalão, entre outros golpes realizados por pessoas
inescrupulosas.
Então
porque não colar? Porque o sujeito que age honestamente não prejudica ninguém e
conquista seu espaço por mérito, sem trapaça. Exercitando seu conhecimento com
responsabilidade está confirmando seu caráter e seus princípios. Não enganando
e não trapaceando torna-se uma pessoa confiável, fiel, leal e esperamos que
incorruptível.
Portanto
é necessário encontrar uma solução para este problema. Não dá para crer que os
pais consigam de um dia para o outro lapidar a personalidade e o caráter de
seus filhos. Também não é possível permitir que os estudantes continuem colando
e já não adianta mais falar sobre formar cidadãos críticos, conscientes,
honestos e blá, blá, blá. Não conheço solução para este caso.
Como professor
sofre em dia de prova! Então entregue a prova a seus alunos e diga-lhes: Quem não cola não sai da escola…
Honestamente! Boa prova!
Sonho ou pesadelo?
A escola dos
sonhos não pode ser transformada em escola dos pesadelos como vem acontecendo.
Há momentos que tudo parece um sonho, um conto de fadas. Quando iniciamos a
carreira de professor ou educador, tudo é tão fascinante. Logo que saímos da
“universidade”, estamos cheio de esperanças, ideologias, sonhos, utopias,
vontade de lecionar. É tudo tão lindo, maravilhoso, o primeiro salário anima
ainda mais, reforçando a vontade de realizar mais e realizar-se como professor.
Depois vem o
momento da decepção, das desilusões, do arrependimento. O sonho virou pesadelo.
O professor já está desgastado, cansado, revoltado. Mas nem tudo está perdido.
Há altas e baixas na Educação, uma oscilação radical de um extremo a outro.
Logo chegará a fase melhor, com a ajuda do professor, peça fundamental para a
melhoria da Educação.
Escolas boas e
ruins existem em todos os lugares do mundo. No Brasil nem todas as escolas são
ruins, apenas algumas poucas são péssimas. O que está ruim no Brasil é a
situação sócio-econômica, a grande desigualdade social que provocam o
desinteresse da população pela educação e a descrença num futuro melhor. Esse
problema reflete na escola, nas salas de aula, principalmente de escolas
estatais (estaduais e municipais). A escola neste caso funciona como esgoto da
política nacional. Tudo que é decidido no Congresso Nacional, na Assembléia
Legislativa e nas Câmaras Municipais, afeta o cotidiano do povo e “deságua” na
escola.
A violência
nas escolas não é fruto da Educação, mas de um conjunto de fenômenos sociais
que reflete na sociedade.
A sociedade é
dinâmica, muda constantemente. As mudanças provocam insegurança, desconforto e
medo. A conseqüência disso é a violência na sociedade e nas escolas.
A falta de uma
canalização para escoar a violência sem prejuízo da sociedade causa a agressão
contra os indivíduos e contra instituições como escolas, hospitais, delegacias
e outras.
Toda essa
violência não é de responsabilidade da escola. É um problema social grave que
deve ser resolvido com propostas sérias e descentes através de projetos
sociais. Além de projetos a escola tem papel importante na construção de uma
sociedade menos violenta.
Neste caso o
papel da escola é o de colaborar com a sociedade na formação de sujeitos
capazes de superar seus problemas através da aprendizagem para que possam mudar
e transformar a sociedade. A escola em parceria com a família, com empresas,
com o Estado – em parceria -, com as Igrejas – todas – e com a sociedade deve
unir forças para “salvar a humanidade.
O professor
precisa ter a consciência de que ele é capaz de transformar a sociedade através
do que ensina a seus alunos. Isso é formar cidadãos – críticos e conscientes.
Críticos e capazes de questionar a realidade e a própria postura na sociedade e
conscientes para participarem da transformação da situação que vivem ou se
encontram no momento para uma condição melhor de vida. Para transformar o
pesadelo em sonho!
CTRL/C – CTRL/V
Geração xerox
Na História da
Educação o desinteresse sempre esteve presente. Sempre existiram alunos que não
gostam de estudar. Só que antigamente freqüentavam as escolas apenas aqueles
que tinham condições financeiras para estudar, que não precisavam trabalhar
para ajudar os pais com a renda familiar.
Após o
processo de democratização das escolas estatais, o ensino fundamental tornou-se
obrigatório para crianças e jovens em idade de freqüentar a escola. Desde que os
educandos tenham menos de dezoito anos de idade, os pais são obrigados a
matricular e acompanhar os filhos, verificando a freqüência e o rendimento
escolar – claro que isso nem sempre é feito – evitando que haja evasão escolar.
Mesmo que os pais sejam pobres, são obrigados por força da Lei a manter os
filhos menores na escola.
Atualmente, os
pais são responsabilizados pela baixa freqüência dos filhos na escola e podem
até responder processo por irresponsabilidade.
O resultado
foi o aumento de estudantes, ou alunos matriculados na rede estatal de
educação, abrangendo todas as camadas sociais, sem exceção.
Do ponto de
vista democrático é a coisa certa, pois, todos os membros da sociedade devem
freqüentar escola e possuir grau de instrução satisfatório ao desenvolvimento
individual e coletivo.
Mesmo assim,
muitas crianças não eram matriculadas pelos pais – contrariando a lei – porque
precisavam trabalhar – em olarias, carvoarias, pedreiras, roça, entre outras
atividades – para ajudar a complementar a renda familiar.
Por outro
lado, os governos exigem a presença dos alunos nas escolas sem criar uma forma
de mantê-lo por vontade própria, pois, muitos jovens vão à escola porque são
obrigados por lei e porque recebem “doações” do governo para permanecerem na
escola. Mas só estão presentes fisicamente, pois suas mentes estão em outra
dimensão.
O número de
matrículas cresceu com o aumento da população, mas graças também as bolsas:
família, escola, entre outras “esmolas” utilizadas pelo governo como mecanismo para
aumentar a pobreza, a desigualdade social e controlar a sociedade com a
política do clientelismo. É através de mecanismos de “proteção”, “assistência”,
“doação”, tudo por conta do Estado, que a população é dominada. Esse sistema
impede que o indivíduo trabalhe e lute para conquistar seus sonhos, pois são
controlados e manipulados por falsos benefícios do Estado. Quem mais ganha com
isso tudo são os politiqueiros profissionais que vivem à custa da miséria, da
carência e da ignorância do povo.
O desinteresse
dos alunos que freqüentam a escola e dos professores não é novidade. A
desmotivação de professores causada pela indisciplina dos alunos é um problema
social antigo que vem se agravando cada vez mais.
Sempre
existiram alunos que colavam, copiavam textos de livros e entregavam como
trabalhos, isso não é surpresa, mas hoje, com o avanço tecnológico surgiu a
“geração xerox” e a “geração ctrl/c – ctrl/v”. É a geração de estudantes em
todos os níveis que copiam textos da internet e imprimem como trabalhos
escolares. Muitos planos de aula dos professores são copiados todos os anos.
Vivemos um
período de falta de criatividade. Falta de ousadia. As crianças brincam com
bonecas que falam várias frases, fazem xixi e cocô. A menina fica parada, nem
se meche, pois a boneca faz de tudo. Jogos de computador e derivados mais
evoluídos do videogame tiram a criatividade dos garotos quem nem brincam mais
com bola. As crianças não pulam corda, amarelinha, não brincam com bambolê, não
jogam peteca, fubeca, não
rodam pião, não empinam pipa, não andam com carrinho de rolimãs, não fazem
bonecas de pano para brincar, estilingue, entre outros brinquedos e
brincadeiras que exigiam “preparo físico”, criatividade e pouco dinheiro. Os
brinquedos são individuais e acabam com a sociabilização, criatividade,
interação e integração.
Pior, a
sociedade que só copia, não cria, não inventa, só imita o que aparece com a televisão
que se tornou a babá de muitas crianças brasileiras, está se tornando uma
sociedade apática, desmotivada, fria, efêmera, caótica, babaca, mais acomodada
do que já era, estúpida, arrogante, egoísta e tapada.
Escola Pública ou Estatal?
Quando
a política for separada da educação, digo a politicagem, a educação melhorará.
A educação é um movimento político, mas não deve estar a mercê de politiqueiros
que usam a bandeira da educação apenas para se promoverem em períodos de
reivindicações dos profissionais da educação, em palanques de greve ou através
de “líderes sindicais” que só carregam a bandeira e só vestem a camisa da
educação em época de eleições.
Muitos
políticos falam que a escola pública estatal está ótima, porém, poucos
matriculam os filhos nela. Por quê? Porque são demagogos e não acreditam na
escola que é administrada e mantida pelo Estado. O Estado também é administrado
por “homens” eleitos pelo povo para governar a favor do povo, mas acabam
defendendo seus interesses particulares ignorando as necessidades do povo e
deixando as escolas sucateadas.
O
aluno é tão “importante” para o Estado que investe mais em presídios e gasta
mais com presidiários do que com os alunos e construção de escolas.
Muitos
professores de escolas estaduais e municipais fazem sacrifícios e matriculam
seus filhos em escolas particulares evitando as escolas estatais. Por quê?
Porque querem que seus filhos “aprendam mais” e possam ingressar em
universidades federais e estaduais. Estão certos, pois também não acreditam na
escola que trabalham, porém, são estes professores em conjunto com os
governantes e com pais e alunos responsáveis pela boa qualidade da educação e
da escola que trabalham, ou lecionam.
O
diretor de escola, muitas vezes matricula os filhos em outras escolas, as
particulares. Será que não confia nos professores que dirige, ou na escola que
administra? Muitos diretores nem sabem o que acontece na escola de sua
responsabilidade, apenas “dirige” sem saber que rumo seguir ou limitam-se a
trabalhos burocráticos justificando que se não preencher aqueles papéis os
professores ficarão sem salário, ou que a escola não receberá verba para
materiais.
Os
professores são muitas vezes os mesmos. Mas os alunos têm objetivos diferentes.
Os pais têm objetivos diferentes. A proposta da escola é diferente. Nas escolas
particulares o investimento é com o estudo. Os pais cobram resultados, pois
estão gastando dinheiro, muitas vezes só exigem que o filho seja promovido para
não “perderem” o dinheiro gasto na mensalidade da escola e quando o filho está
prestes a “perder o ano”, o pai, “consciente” e benfeitor do filho, transfere a
“pobre criança” da escola particular para uma escola estatal na esperança de
que consiga “recuperar o ano” o que muitas vezes acontece. Nas escolas
estatais, muitos pais – não são todos – entendem que o Estado tem obrigação de
equipar a escola e distribuir material didático para os alunos - e não estão errados - mas não vêem esse
gasto como investimento pago por ele através de impostos, portanto, acredita
que a escola é “gratuita”, sendo assim, tanto faz se o filho aprender ou não. De
qualquer forma, aprendendo ou não, acabam sendo “promovidos”. O problema nem é
a “promoção automática”, mas a maneira que está ocorrendo e o resultado
prejudicial à sociedade.
Os pais são
fundamentais para que a escola funcione bem, pois são eles os principais
responsáveis pelo futuro dos filhos, portanto, quanto mais colaborarem para a
construção de uma escola melhor, de uma educação pública estatal de qualidade e
para uma sociedade mais justa, mais seguros estarão seus filhos e demais herdeiros.
O
problema é educacional, social, ou financeiro? Talvez todos.
A
sociedade forma o cidadão e o educa para a escola. E a educação forma o cidadão,
o educa e o prepara para a sociedade.
Os
alunos entram na sala de aula gritando, arrastando mesas e cadeiras. Ma já
chegam assim.
Será
que a escola o deixa assim, ou será que em casa ele é assim?
Salas de bate-papo
Nas
salas de aula, superlotadas – aproximadamente quarenta e cinco por sala -, com
alunos “falantes”, e é claro que são falantes, pois não são mudos, são falantes
e barulhentos, portanto, falam durante a aula o tempo todo, “assistem”, se é
que se pode dizer que assistem, aula de costas para o professor, com fone de
ouvido no ouvido, celular na mão, baralho, batom, brilho, espelhos, entre
outros adereços que compõem o kit aluno.
Enquanto
o professor tenta expor o assunto da aula aos alunos “presentes”, ocupantes de
espaço numa sala de aula, outros seres ocupantes de espaço continuam na sala,
mas na “sala de bate-papo”.
As
salas de aula já se tornaram salas de bate-papo. Os alunos conversam sobre o
assunto que interessa a eles e ignoram a presença do professor. Acreditam que o
professor é um intruso que invade o espaço deles, sem pedir licença e atrapalha
suas atividades “on-line ou off-line”.
O
barulho, ruído, som produzido pelos alunos dentro de uma sala de aula é
prejudicial à saúde do professor e dos próprios alunos. É tão óbvio, porém,
ninguém enxerga, digo, ninguém ouve, nem age para acabar com o problema, nem o
professor, o mais prejudicado com tanto barulho. Todos acabam se habituando ou
ficando surdos que não conseguem ouvir mesmo.
Os
alunos gritam por gritar. Não conversam em tom baixo, suas falas são gritadas.
Muitos alunos freqüentam ambientes barulhentos – o mundo está mais barulhento -
e precisam gritar para serem ouvidos. Quando estão na sala de aula agem como se
estivessem na rua, pois andam pela sala, circulam entre as mesas e se as cadeiras
estão na frente é só arrastá-las ou chutá-las provocando aquele som irritante
produzido pelo pé da cadeira – de metal - ou da mesa sendo arrastados no piso.
Raramente um aluno levanta a cadeira sem arrastá-la para sentar-se. A culpa
talvez não seja dos alunos, mas de alguém que não ensinou que é menos
barulhento e mais educado mover a cadeira ou a mesa sem produzir aquele
barulhão.
Os
freqüentadores das salas de aula, ou seja, os alunos, berram, ouvem música
através de aparelhos de MP3, MP4, MP5, celular, Ipod e mesmo quando não pode, assistem
vídeos pelo celular ou aparelhos semelhantes, utilizam estes aparelhos
barulhentos e batucam nas mesas, dançam na sala no embalo das “danças de rua”, conversam
pelo celular com outros colegas de outras salas de aula ou de fora da escola,
transferem músicas, imagens, vídeos através do Bluetooth e não estão nem aí com
o resto.
Esse
conjunto barulhento agride os ouvidos, ofende a audição. E para complementar,
pronunciam palavras chulas durante a gritaria como se fossem versos de uma
poesia.
O
professor sente a cabeça doendo, um zumbido incomoda como se fosse um
pernilongo dentro da cabeça zumbindo o tempo todo.
A
sensação de perda de audição e equilíbrio, relacionados ao barulho, provocam
mal-estar. Essa barulheira acelera o estresse, causa depressão e surdez. O Estado acaba gastando mais com readaptação
de professores. É mais barato investir em mais salas de aula com menos alunos e
mais professores com salários melhores do que gastar com tratamento e salários
de professores afastados por conseqüência de problemas adquiridos em sala de
aula devido o excesso de trabalho para ganhar mais e o número elevado de alunos
barulhentos em sala de aula em prédios inadequados para escolas.
Diário de Classe
Durante
um ano letivo vários professores registraram em seus diários de classe no campo
de observações, as ocorrências dos alunos durante suas aulas.
No
segundo ano do ensino médio do período noturno os alunos estão barulhentos, conversam, gritam, andam pela sala, entram
e saem da sala quando “querem”. Muitos alunos deixam o MP3 ou o celular ligado
com músicas barulhentas. Vários aparelhos ligados ao mesmo tempo, cada um com
um som diferente e com volume altíssimo. Alguns alunos dançam hip hop na sala
como se estivessem num festival de danças de rua.
No
outro dia, com o mesmo professor, na mesma sala, com apenas vinte e três
alunos, pois mais da metade da sala havia faltado, o professor fez uma
atividade para que os alunos pudessem refletir, discutir e responder algumas
questões expondo opiniões pessoais sobre uma determinada situação. Muitos
alunos estavam andando pela sala, jogando
bolas e aviõezinhos de papel feitos com as atividades. Gritam e vibram por
qualquer fato ocorrido na sala, como se estivessem num estádio de futebol
gritando:olé! Conversam sobre assuntos banais, banalizando ainda mais temas
como sexualidade, namoro, drogas, entre outros assuntos. Também jogam cadernos
pela sala sem considerar a presença do professor ou de outros colegas de
classe. O descaso é real. O desprezo pela aula é quase total, pois alguns
alunos vêm para “estudar”, enquanto outros liberam seus instintos “selvagens,
animalescos e infantis”, talvez pensem estar num zoológico.
Durante
uma aula, de outro professor, enquanto um
dos alunos fazia a leitura de um texto para ser interpretado e discutido em
grupos, os demais alunos conversavam paralelamente à leitura do texto, sobre
outros assuntos, alguns estavam quietos ouvindo som de um celular barulhento,
algumas meninas, ou moças, já que são maiores de idade, se maquiavam com batom,
brilho, se olhavam no espelho – talvez para saber se o espelho está bonito -,
penteavam os cabelos – faltou alisar com “chapinha” -, ajeitavam o peito – os
seios -, olhavam o bumbum da colega, olhavam para o próprio bumbum – talvez,
para comparar os bumbuns -, e ninguém está interessado no assunto lido pelo
colega que continua lendo o texto sem se importar com a falta de atenção e o
desinteresse dos colegas.
Após alguns
meses de aula, sem conseguir êxito com os alunos, depois de algumas
advertências verbais e escritas um professor registrou o seguinte em sua
caderneta: Hoje os alunos estão mais
“calmos”, “Graças a Deus”. Estão copiando um texto para responder quatro
questões valendo nota para ajudar na média bimestral. Porém, continuam fazendo
algumas piadas sem graça e ouvindo som com celular ligado, mas cada aluno ouve
seu próprio aparelho utilizando fones de ouvido. A conversa paralela ainda
existe assim como o atraso na entrada da aula. Alguns alunos entram depois de
trinta minutos que soou o sinal de entrada. Outros alunos continuam brincando
no fundo da sala de aula, “trocando tapas”, correndo pela sala, falando em tom
elevado e não fazem as atividades propostas, mesmo sendo para nota.
Neste
caso é importante ressaltar que são alunos com mais de dezoito anos de idade. A
maioria trabalha o dia todo e freqüentam a escola à noite. Todos são ou
deveriam ser “conscientes” de suas atitudes e das conseqüências que podem acarretar
por causa do comportamento inadequado de cada um. São inconseqüentes.
Mesmo
assim, insistem com as brincadeiras, perturbam a aula, provocam e desafiam os
professores e a direção da escola. Suas brincadeiras são grosseiras,
agressivas, estúpidas, destrutivas, submetem seus colegas que chamam de amigos a
humilhações.
Assim,
os professores daquela sala conseguiram “sobreviver” ao longo do ano. Dividindo
o sofrimento, as angústias e se unindo para que pudessem se apoiar um no outro
e juntos suportarem o peso, a carga pesada e os encargos da Educação.
No último
registro do ano um professor escreveu: Hoje
os alunos estão lendo um texto distribuído pelo professor. Após a leitura
deverão conversar sobre o assunto e apresentar suas conclusões. Alguns alunos
estão gritando, incomodando os demais. Batem nas mesas fazendo batuques. Por
enquanto estamos na segunda aula da noite, e os alunos permanecem
“trabalhando”, com exceção daqueles que continuam brincando. Faltam “somente”
três aulas para encerrar o período e o dia. Os alunos perturbadores ligaram o
celular e estão dançando, gritando – parece que estão “drogados ou possuídos” -,
pronunciando palavras de baixo nível, indesejáveis aos ouvidos educados. A
situação permanece quase a mesma, pois a falta de educação e falta de respeito
continuam apesar de alguns alunos terem evoluído.
Em
outro diário de classe, de outro professor, está registrado o seguinte: A aluna “Fulana de Tal” do terceiro E, do
ensino médio, dezenove anos de idade, bonita, ou seja, de boa aparência, masca
chiclete e estoura bolas de chiclé durante a aula. O professor tenta expor o
conteúdo da aula e a aluna continua mascando com a boca bem aberta e estourando
as bolinhas que irritam qualquer pessoa que tenta se concentrar para ouvir a
aula ou ler um texto. Não sei se ela faz isso para chamar a minha atenção ou de
outro aluno da sala. Talvez seja carente demais e precise de um pouco de
atenção. Infantilidade talvez. Acredito
que ignora as boas maneiras. Ou é maldade mesmo.
Na mesma sala de
aula – 3º E – hoje os alunos estão
falantes, agitados, conversando além do “normal”. Parece que o interesse pela
escola não existe, se é que existiu. Não é possível que alguém perca o
interesse pela escola da noite para o dia. Realmente nunca devem ter se
interessado pela escola. É como se freqüentassem a escola apenas por obrigação.
Apesar de adultos, todos com mais de dezoito anos, agem como crianças ou
adolescentes. Muitos são casados, pais e mães, com filhos freqüentando a mesma
escola – em outro período -, mas o comportamento, a disciplina é ignorada por
eles que só querem “bater papo” sobre assuntos corriqueiros, fofocas de novelas
e dos colegas, contar como foi o dia no trabalho, no clube, na academia, como
foi o encontro com o parceiro ou a parceira e até com o amante e atender
celular em sala de aula mesmo sabendo que é proibido.
No período noturno
também, numa oitava série do ensino fundamental de Educação para Jovens e
Adultos – EJA -, um aluno ateou fogo no latão de lixo durante a aula de uma
professora gestante a poucos dias de dar à luz. A chama aumentou rapidamente e
atingiu o teto da sala, queimou o forro de PVC e a cortina. Por fim o aluno
incendiário jogou o latão com fogo e tudo no pátio da escola. Por sorte não foi
pior, pois, poderia ter acabado com uma tragédia. O aluno foi suspenso das
aulas por uma semana perdendo avaliações. Depois de uma semana voltou, não pôde
realizar as avaliações e ficou sem média bimestral. No final do ano letivo,
como tinha freqüência satisfatória e médias “na média” foi aprovado e está apto
para freqüentar a série seguinte. Logo estará cursando uma universidade.
O
grande problema disso tudo é que situações como estas estão se tornando
corriqueiras e comuns nas escolas. Os alunos, os professores, a direção e a
sociedade se acostumam com esses fatos que não assustam mais porque já fazem
parte do cotidiano escolar.
O aluno que multiplica
Uma
professora de matemática – em 2007 - propôs aos alunos da quinta série do
ensino regular, de uma escola estadual que montassem ou construíssem uma
história com os números quarenta e cinco e trinta e cinco. A professora
explicou que queria que um número fosse multiplicado por outro. Até então nada
complicado para uma professora de matemática. Talvez não seja tão fácil de
compreender quando se tem onze anos de idade.
Todos
os alunos da sala realizaram a atividade proposta para aquela aula e entregaram
à professora. Certamente nem todos conseguiram atingir o resultado esperado
pela professora devido o grau de complicação daquela atividade e principalmente
pela dificuldade de se escrever um texto, mas sendo uma professora experiente,
sabia que usaria aquela atividade para reconhecer as dificuldades e falhas de
seus alunos e aproveitaria para planejar suas aulas com a finalidade de sanar
aquela e outras dúvidas.
Porém,
uma atividade chamou a atenção da professora que ficou estarrecida com o fato. O
coordenador, a diretora e outros professores da escola ficaram impressionados. Um
aluno de treze anos de idade – na quinta série - escreveu o seguinte texto: numa noite “comi” – transou – quarenta e cinco mulheres. Na outra noite
comi trinta e cinco mulheres. No total comi mil quatrocentas e setenta e cinco
mulheres.
A
professora guardou a atividade para que pudesse pensar junto à coordenação e o
corpo docente da escola e então tomar uma atitude. Apesar de engraçada a
situação é desgraçada, pois não se sabe se o aluno quis zombar da professora ou
se realmente escreveu “inocentemente” aquele texto. Isso não foi possível
descobrir porque o aluno abandonou a escola “facilitando” o trabalho da
professora que tinha que resolver aquele assunto.
Pelo menos o
aluno acertou o processo ou a montagem da multiplicação, mas o resultado está
errado, pois se aquele aluno multiplicou quarenta e cinco por trinta e cinco o
resultado deve ser mil quinhentas e setenta e cinco – errou por cem – mas como
o “fenômeno” transou com quarenta e cinco mulheres numa noite e trinta e cinco
noutra, totalizou oitenta mulheres em duas noites.
Mais tarde a
professora soube que aquele aluno estava trabalhando num lava - rápido como
lavador de carros.
“Selva de aula” ou sala de aula?
Numa escola
estadual no ano de 2007, no período noturno em uma sala de aula do segundo ano
do ensino médio, composta por cinqüenta e três alunos, um deles saiu da sala de
aula descaradamente sem que o professor percebesse, atravessou engatinhando, ou
seja, “de quatro”, um corredor de trinta metros de comprimento, para fugir da
escola. O motivo não foi apurado, tudo indica que aluno apenas queria ir
embora.
Talvez a aula
fosse sobre táticas de guerra ou sobrevivência na “selva de aula”, digo, na
sala de aula. Mas era de Inglês, ministrada por uma bela e jovem professora.
Ao passar
rastejando por baixo do balcão da secretaria, faltando apenas três metros para
completar a fuga – o aluno conseguiu rastejar vinte e sete metros sem ser
percebido -, a professora que estava na sala ao notar a ausência do aluno
fugitivo saiu da sala e avistando o fujão gritou despertando a atenção de todos
que estavam na escola. A diretora imediatamente rumou na direção do grito e
“deu de cara” com a “ovelha desgarrada” tentando fugir do rebanho. Como boa
pastora, percebendo o ocorrido, a diretora advertiu verbalmente o aluno, fez
com que ele voltasse para a sala, “de quatro”, e se esborrachou de rir, afinal
a cena é hilária.
Na mesma
escola uma aluna da sétima série do ensino fundamental, no período da tarde,
ousou desafiar a paciência de outro professor e decidiu correr pela sala de
aula durante uma avaliação de história. Depois foi “consultar” as repostas dos
colegas. Ao ser advertida pelo professor respondeu estava apenas conferindo as
avaliações com os colegas da sala, queria comparar as respostas.
Situações como
estas ocorrem diariamente em escolas estatais e particulares. A falta de
respeito dos alunos tratando os professores como se fossem “coleguinhas” vem
aumentando. Estes alunos ficam impunes - como muita coisa que ocorre no Brasil
– e se fortalecem cada vez mais.
A falta de
respeito não é só com professores, é também com os próprios pais. Às vezes
parece que os jovens “respeitam e temem” mais os professores que os pais.
Muitos alunos
e muitos indivíduos na sociedade falam de Deus, paz, amor, dizem que “somos todos irmãos e filhos de Deus”,
na Igreja são alegres, se abraçam, sorriam, sonham com um mundo melhor. Mas ao
chegar em casa tratam os pais como se fossem lixo. Na escola tratam os
professores como se fosse lixo.
De que adianta
nesses casos, fazer citações bíblicas, declarar lindas palavras de amor a
estranhos e em casa e na escola agir como delinqüente?
O que esperar
do Mundo, da Vida, da Educação? Nada? Somos e conseguimos aquilo que esperamos
e desejamos. Se não esperamos nada do Mundo, da Vida, da Educação, não teremos
nada.
Se não
esperamos nada, corremos o risco de sermos devorados na selva de aula. Mas se
esperamos algo temos a chance de sobreviver na selva e chegar à sala de aula
com vida.
Quem agüenta?
Que professor
agüenta o descaso de pais que reclamam que trabalham e não tem tempo para
perder com a indisciplina dos filhos dizendo que é problema da escola? Alguns
pais atribuem a responsabilidade ao professor, afinal, segundo alguns pais, é o
professor a autoridade na sala de aula. Portanto, resolva.
Em 2008 a diretora de uma
escola telefonou para o pai de um aluno que havia desacatado gravemente um
professor após ter perturbado durante a aula inteira os colegas da classe. O
aluno já era “cliente” da direção, pois, causava “problemas” o tempo todo, em
todas as aulas, todo dia, com todos os professores, o ano inteiro, há vários
anos. O pai ouviu a queixa da diretora, resmungou e respondeu que não podia ser
incomodado naquele momento porque estava trabalhando. A diretora respondeu ao
pai que ela e seus professores também estavam trabalhando e que o filho dele
estava atrapalhando o trabalho docente e decente daquela escola.
Há pessoas
grotescas em todo lugar, até na escola, instituição de educação. Houve casos de
inspetores de alunos que ordenaram aos professores que mantivessem os alunos
dentro da sala, pois estavam circulando muito pelo corredor. Há funcionários
que entram na sala de aula sem bater na porta nem pedir licença, chamam a
atenção do professor perante os alunos e saem batendo a porta. Sem exagero
situações como estas ocorrem em escolas.
Durante um
HTPC,
um coordenador desacatou os professores, chamando-os de incompetentes,
incapazes e exigiu que mantivessem a “ordem” na sala de aula, pois já não
agüentava mais reclamações de professores, alunos e pais de alunos.
Tem diretor de
escola que ameaça os professores com advertências. Hoje a moda é “avaliar” o
professor durante o período de estágio probatório. Dizem que se não “tomarem
conta” dos alunos serão advertidos, pois é o professor quem manda na sala aula.
Mas na hora de impor uma ordem, ignora a autoridade do professor na sala e age
autoritariamente contradizendo a fala anterior.
Há também
professores que criticam, fofocam, destratam os colegas de trabalho e os
alunos. Há professores grosseiros que ofendem, desacatam, agridem verbalmente e
até fisicamente, colegas de trabalho e alunos.
Muitos
professores são tão “neuróticos” que “vivem” sob efeito de medicamento forte
contra estresse e depressão. Muitos recorrem a remédios controlados sem
orientação médica. Como conseguem esse material não é difícil descobrir.
Não são todos,
mas se observarmos o comportamento dos professores numa festa, numa reunião,
num htpc, o assunto é sempre o mesmo: aluno. Com tantos assuntos alegres, divertidos,
interessantes, o professor conversa com um colega de trabalho sobre alunos,
criticam diretoras, secretárias de educação, decretos do governador, propostas
pedagógicas, greve, paralisação.
No htpc, entre
os colegas, alguns com mais experiência outros com menos, com tanta
oportunidade de trocar idéias para enriquecer o conhecimento, muitos acabam
discutindo sobre o mocinho ou a vilã da novela ou quem será o vencedor do
prêmio do BBB – Big Brother Brasil.
A minoria dos
professores são neuróticos, agressivos e dependentes de medicamentos
antidepressivos. Sinal que nem tudo está perdido, afinal, a maioria é “normal”,
espero.
Se esta
situação se inverter, quem agüenta?
Quanto mais leciono...
Mais amo minha família!
Muitos
professores se desgastam tanto em sala de aula devido ao comportamento dos
educandos que chegam a proferir que cada aula que “sofrem” buscam a cura no
aconchego do lar. Um professor disse que quanto mais entra numa sala de aula
mais ama sua família.
É confortante
acreditar que a família do professor seja a cura para seu sofrimento, é sinal
que há salvação, pelo menos para o professor.
Porém,
infelizmente, a família também sofre porque o professor não suporta a carga do trabalho
e descarrega também em casa, na família.
É lamentável
ouvir isso, mas é a realidade da Educação brasileira. Os profissionais da
educação estão cada vez mais desgastados, estressados e com depressão. Alguns
sofrem o pânico da sala de aula. A profissão do professor se tornou um trabalho
muito difícil por causa dos problemas que agravaram a educação.
Dizer que
lecionar é um sacrifício, um sofrimento, tarefa árdua, significa que algo está
errado, ou muitas coisas estão erradas. Talvez os professores não estejam
preparados psicologicamente, como é mais fácil e comum se dizer. Talvez o
sistema educacional esteja ultrapassado. Acredito que a Secretaria de Educação
está cobrando algo dos professores que está além de suas competências. Os
profissionais que trabalham em gabinetes não conhecem a realidade da Educação.
São profissionais que nunca pisaram numa sala de aula de uma escola estatal ou
se pisaram se esqueceram que ela existe.
Para os burocratas é interessante que fique comprovado
que não é preciso professor para que o aluno aprenda. Basta um monitor, já que
é um trabalho depressivo e causa tanta despesa para o estado.
Se a educação estatal se acabar, se a escola
convencional se acabar, o que os professores farão?
Com a Educação a Distância e a escola em decadência
quem serão os professores?
Imagine que o Estado feche as escolas. Economiza com
manutenção de prédios, água, iluminação, merenda. Os professores e funcionários
são exonerados. Economizam com salários, férias, décimo terceiro, bônus,
licenças médicas. O Estado evita problemas com violência nas escolas e
depredação de prédios. Então o governo implanta a Educação à Distância a partir
do primeiro ano do ensino fundamental até o ensino superior. Parece loucura,
alucinação. Pouco tempo atrás, era absurdo dizer que um dia existiriam
faculdades à distância, hoje é realidade. Basta o Estado concentrar tudo num
prédio, instalar uma central de computadores conectados à internet, alguns
monitores transmitindo atividades e pronto. Sem sair de casa, o aluno “estuda”,
é “avaliado”, “aprovado” e pronto. Acabam os problemas com professores, greves,
paralisações e dores de cabeço para os governantes. Os professores então terão
mais tempo para suas famílias.
Onde está o problema da escola?
Serão os
professores? Talvez estejam mal preparados, mas se for apenas isso basta um
melhor preparo, cursos de capacitação.
Pode ser que o
problema esteja na falta de interesse dos alunos, então como fazer para que o
aluno passe a se interessar pelas aulas e pela escola?
Talvez não
exista um problema, pode ser apenas uma fase de mudança, de transição e
adaptação da sociedade que inevitavelmente reflete na escola.
É difícil
aceitar mudanças. Elas provocam instabilidade e medo. Porém, as mudanças fazem
parte da dinâmica da sociedade. Mudanças sempre foram e sempre serão vitais
para a humanidade, pois permitem o aperfeiçoamento e o conhecimento. Algumas
“espécies” desaparecem, surgem outras. Algumas profissões são extintas, outras
entram em cena.
Apesar de
existir professores mal preparados, funcionários incompetentes, diretores que
não dirigem nada, secretários de educação que não entendem nada de educação, a
educação está resistindo e sobrevivendo – claro que não são todos, a maioria é
competente – o problema é político. Enquanto
a educação continuar sendo administrada por pessoas que não têm competência e
que nunca pisaram numa sala de aula, as escolas continuarão sendo alvo de
políticos preocupados apenas com a verba da educação.
O problema da
escola e da educação estatal brasileira é que prefeitos, governadores,
“empregam” parentes, amigos que não entendem nada de educação e “deixam rolar”.
Os governadores querem provar que seu Estado é melhor que os outros. Contrata um
profissional para dirigir a Secretaria de Educação de Estado. O Secretário pode
ser bem intencionado, atingir metas exigidas pelo governador, mas não entende
que não basta estalar os dedos e assinar papéis.
Os prefeitos
municipalizam o ensino. Recebem verba para investir na Educação Municipal.
Contratam parentes e amigos, ignorando os concursos públicos. Escancaradamente
emprega a prima, a tia, a sobrinha, a cunhada, a amiga. Distribui em cargos de
confiança. Estes profissionais não questionam a precariedade das escolas porque
são parentes e ocupam cargos, estão empregados. Depois, trabalham como
cabos-eleitorais para o “chefão”.
Isso tudo
provoca estagnação, corrupção, imoralidade, descaso, irresponsabilidade, falta
de compromisso com a população.
Para resolver
o problema, é preciso que os cargos administrativos como secretarias de
educação, sejam ocupados por quem conhece a realidade das escolas estatais
brasileiras, o professor.
O professor é babá, pai e mãe eventual.
Muitos alunos
fazem apenas a refeição que a escola oferece, no caso de escolas de ensino
fundamental onde as prefeituras ou o Estado mantém a merenda. Alguns alunos
levam a comida que sobra da merenda para casa, para que os pais e os irmãos –
geralmente são muitos irmãos - também possam se alimentar.
A escola não
deveria substituir a Assistência Social, mas diante de uma situação como essa,
não pode deixar de sensibilizar-se e ajudar as famílias dos alunos carentes.
O Estado tem
obrigação de dar mais condições à população para que esta possa se alimentar
melhor sem necessitar de “esmolas” através da política do “Pão e Circo”.
Apesar de
existirem os “auxílios” do Estado à população carente, não é suficiente nem
digna a forma de assistência utilizada pelo governo para atender as pessoas
mais necessitadas.
Os problemas
sociais são tantos que a população muitas vezes busca apoio na escola e nos
professores para solucionar alguns problemas: jovens viciados em drogas e
envolvidos em furtos, roubos, assaltos. Meninas grávidas que não querem falar
com os pais, pais alcoólatras que espancam e abusam sexualmente dos filhos. Pais
que se separam e os filhos ficam “perturbados”. Alunos que não podem comprar
uniforme e material escolar porque os pais estão desempregados. São tantos
casos que seria preciso outro livro só para esses problemas.
Com isso o
professor acaba sempre atendendo alunos e pais de alunos como se fosse um
psicólogo, terapeuta ou profissional contratado apenas para que a população
possa se desabafar.
São muitos os
alunos que preferem conversar com o professor sobre um problema particular por
temer a reação dos pais. Como o professor pode negar ouvir um aluno ou pais com
problemas?
O professor
não pode e não deve tentar resolver os problemas pessoais dos alunos e de sua
família, para cada situação existe um órgão governamental competente e
responsável para isso, mas é sempre o professor que acaba filtrando essas
informações ou até se envolvendo com elas.
Muitos alunos
respeitam mais os professores que os próprios pais. Por um lado o professor
pode se sentir honrado, por outro, isso é perigoso, pois diminui a boa relação
entre pais e filhos e aumenta a responsabilidade do professor que acaba sendo
babá, pai e mãe eventual.
Afinal, o que é educação e qual sua finalidade?
Acredito na
Educação que transcende seus objetivos. O professor precisa estar além de suas
funções. Não basta esperar que a sociedade mude, ou que Secretárias de Educação
operem milagres para transformar a escola. A Educação deve ser capaz de
transformar a humanidade antes que ambas entrem em extinção. Não falo
da extinção da espécie, mas da sensibilidade, da sabedoria, do conhecimento, da
“humanidade” que está deixando de ser humana.
Não acredito
na Educação atual que está em “queda livre” acompanhando a decadência da
sociedade. Esta Educação está servindo de balcão de negócios nas mãos de
governantes sem compromisso com o povo. Não acredito na Educação que serve aos
interesses da “elite dominante” do país escravizando os pobres empobrecendo-os
mais ainda.
Acredito na
Educação que liberta, que promove a paz e o amor, que une nações e povos. Não
precisamos de homens cultos e “inteligentes” formados para construir bombas
poderosas, armas para matar a humanidade, sistemas político-econômicos que
escravizam, oprimem, estupidificam os humanos. Precisamos de uma Educação e de
homens que estudem para derrotarem a fome, a miséria, a dor, o sofrimento, as
doenças sem cura. Precisamos de homens capazes de promover a alegria, a
justiça, o conforto, a “felicidade”.
A mudança só
poderá ocorrer e só será possível se os professores superarem esses obstáculos
e lutarem pela independência da escola, para se livrar da politicagem sem
vergonha, mesquinha de muitos governantes hipócritas, medíocres e demagogos que
corrompem a Educação.
A Educação
caminha para a libertação do homem, mas é preciso transcender a prática
educacional. É necessário transformar e aceitar que a Educação é a velha e nova
“Religião Universal” capaz de revolucionar o homem, libertá-lo de suas
limitações, religá-lo ao “Deus Pessoal” e transcender os limites humanos.
Afinal,
Educação é a revelação do futuro e sua função é preparar o sujeito para que
seja capaz de transformar o mundo num lugar melhor onde possamos viver em paz.
Considerações finais
O maior
responsável pela escola estar precária e o professor estar desqualificado pela
sociedade é o próprio professor. Por permitir que o que fizeram até hoje. Foi o
professor quem permitiu e aceitou ser rebaixado pelo governo e pela sociedade.
Foi o professor quem abaixou a cabeça quando deveria questionar, reivindicar,
exigir, lutar, gritar, berrar.
Portanto, a
responsabilidade e a obrigação de mudar a educação para melhor e resgatar o
respeito é do professor.
Enfim,
sonhamos com a escola de que falamos, mas pisamos na escola de que sofremos.
Nem tudo está
perdido, afinal, a missão é mudar esse “Quadro Negro” para que sirva de
exemplo, fonte de informações e símbolo de um passado que se preocupou com o
futuro e fez seu alicerce no presente.
