domingo, 19 de agosto de 2012


Introdução

O objetivo do livro é mais que provocar reflexões. O Quadro Negro da Educação não pretende consertar nem corrigir nada, mas incomodar, pois, só pensamos, refletimos e agimos quando nos sentimos incomodados com alguma coisa.
A humanidade só buscou novos horizontes superando obstáculos e ultrapassando barreiras e fronteiras porque se sentiu incomodada com a situação que se encontrava, portanto, buscou superar suas necessidades rompendo seus limites, criando meios para viver mais comodamente e acabou se acomodando demais.
Não pretendemos ensinar como se deve ensinar porque também não sabemos, mas só aprendemos quando eliminamos os bloqueios que nos impedem de aprender. Como escreveu o mestre Guimarães Rosa: “Mestre é aquele que continua sempre aprendendo”.
Antes de iniciar a leitura desse livro o leitor deve se desligar de sua profissão, principalmente o professor. É preciso tirar a máscara, o “guarda-pó”, despir-se do figurino de professor, esquecer as correntes pedagógicas que defende, tirar o rótulo de educador para se livrar dos obstáculos que o impedem de compreender e aceitar propostas e novas idéias antes de conhecê-las e analisá-las.
A posição do professor é de sempre rejeitar, opor-se a qualquer texto que critique sua postura em sala de aula e dentro da escola. A proposta do livro não é a de criticar a postura do professor, mas observar o conjunto em que está inserido e como se relaciona com as situações educacionais.
Para crescer é preciso analisar as propostas, descartar as ineficazes e assimilar as eficazes. Mas como saber quais as propostas eficazes se não conhecermos e experimentarmos? 
Inovações e mudanças não são aceitas pelas pessoas com facilidade, pois muita gente não está tão receptiva. É difícil aceitar que somos falíveis, sensíveis, mutáveis, humanos e muitas vezes responsáveis por muitos erros. É mais fácil apontar o dedo e culpar “alguém”.
Só poderemos consertar algo ou melhorar nossa condição de trabalho quando aceitarmos que também fazemos parte do processo de melhoria e desenvolvimento da educação e da sociedade.
Muita gente mascara a realidade da escola. Quem está na escola e não fala como ela é de verdade, sofre sua pressão.
Ninguém conta o que realmente acontece dentro de uma instituição como a escola por medo de punição ou por cumplicidade. Todos escondem a realidade, a verdadeira realidade.
Não estamos falando de criticar a escola por criticar, pois não resolve os problemas da educação nem os do professor.
Quando criticamos só por criticar a instituição que estudamos ou trabalhamos estamos também condenando nosso futuro. Se dissermos que estudamos numa escola ruim, significa dizer que tivemos uma formação ruim. Se apresentarmos nosso currículo a uma empresa, o entrevistador poderá perguntar se estudamos naquela escola ruim. E se estudamos numa escola ruim, pode ser que sejamos profissionais ruins.
Se trabalhamos numa empresa – no caso escolas – e criticamos nosso trabalho, nossa função, nossos colegas – funcionários, diretores, etc. – apenas por criticar, também estamos nos condenando e nos taxando como professores ou funcionários ruins, pois somos membros daquilo que criticamos. Por isso, cuidado com o que se critica.
Sabemos que não é fácil ser professor, mas para quem acredita que é tão ruim ser professor é melhor mudar de profissão, pois quem vive fazendo o que não gosta, nunca poderá ser feliz nem pode progredir na profissão. Se for bom ser professor porque reclamar tanto? A reclamação torna-se um vício. Habitua-se a reclamar dos alunos, dos diretores, do governo, da família, da vida.
Não pretendemos julgar o professor, nem culpá-lo pelo fracasso da Educação. Entendemos que o maior problema da Educação é puramente político. Educação é um ato político, mas deve ter autonomia para se livrar dos politiqueiros que se declaram defensores da educação e apenas querem desviar sua verba.
Acreditamos que o único responsável por uma boa educação e capaz de satisfazer as necessidades das escolas e de seus envolvidos é o professor porque é quem pisa no chão da escola.
Acreditamos também que o professor precisa capacitar-se mais para acompanhar as mudanças da sociedade porque os alunos não são os mesmos de antes e não adianta lamentar que antigamente era assim ou assado, pois estamos no presente e o professor deve lecionar para o aluno do presente, mesmo que este aluno não esteja tão presente na sala de aula.
Nem o melhor professor do mundo consegue “ensinar” se o aluno não quer aprender. O aluno só aprende o que quer. Não aprende mesmo com o melhor professor se não quiser aprender. Mas o aluno aprende mesmo com o pior professor se tiver vontade de aprender.
O melhor professor só é o melhor porque tem os melhores alunos.
O melhor professor é VOCÊ!
Boa aula, digo, boa leitura.
Educação

Os educadores, os pensadores e os educadores-pensadores de todos os tempos – milhares ao longo do tempo – nem sempre concordaram quanto aos objetivos reais da Educação. Afinal, qual é a finalidade da educação, o que é educação?
Para Aristóteles, a finalidade da educação é o bem moral, no qual consiste a felicidade, definida por ele como a plenitude da realização do humano no homem. Três coisas concorrem para essa realização: natureza, hábito e razão. A primeira nos é dada, mas pode ser modificada pelo hábito, que por sua vez, deve ser dirigido pela razão. Mas é preciso que as três coisas se harmonizem embora o elemento racional deva sempre prevalecer.
Platão valorizava os métodos de debate e conversação como formas de alcançar o conhecimento. De acordo com Platão, os alunos deveriam descobrir as coisas superando os problemas impostos pela vida. A educação deveria funcionar como forma de desenvolver o homem moral. A educação deveria dedicar esforços para o desenvolvimento intelectual e físico dos alunos. Para os alunos de classes menos favorecidas, Platão dizia que deveriam buscar um trabalho a partir dos 13 anos de idade. Afirmava também que a educação da mulher deveria ser a mesma educação aplicada aos homens.
Já no século XVII, Comenius o criador da Didática Moderna concebeu uma teoria humanista e espiritualista da formação do homem que resultou em propostas pedagógicas hoje consagradas ou tidas como muito avançadas. Entre essas idéias estavam: o respeito ao estágio de desenvolvimento da criança no processo de aprendizagem, a construção do conhecimento através da experiência, da observação e da ação e uma educação sem punição, mas com diálogo, exemplo e ambiente adequado.
De Jean-Jacques Rousseau, veio a idéia de que a educação é vida; deve centralizar-se na criança, encontrando sua finalidade no indivíduo, em cada estágio particular de sua vida. Não há em Rousseau a preocupação de “formar a criança”, mas a de permitir que “a criança se forme”.
Johann Heinrich Pestalozzi, foi quem aprimorou esse conceito de Rousseau. De Pestalozzi veio a idéia de que o trabalho educativo eficiente depende do conhecimento atual da criança e de uma genuína simpatia por ela; que a educação é um crescimento de dentro para fora e não uma série de acrescentamentos de fora para dentro; que este crescimento é o resultado das experiências ou atividades da criança; logo, são os objetos, não os símbolos que devem formar a base do processo de instrução; que as percepções sensoriais e não os processos da memória formam a base da primeira educação.
Johann Friedrich Herbart, contribuiu com a idéia de um processo científico de instrução a que chamou “instrução educativa”; a base científica de organização do currículo, e a idéia da formação do caráter como alvo da instrução, a ser alcançado cientificamente por meio do uso de método e de currículos definidos.
Friedrich Froebel defendeu os chamados “métodos ativos” da Escola Nova. Dele veio a verdadeira concepção da natureza da criança; a correta interpretação de que o ponto de partida da educação está na tendência da criança para a atividade; a verdadeira interpretação do currículo como representação para a criança da experiência do mundo ou da herança da cultura e da raça; e em geral, a primeira, e talvez a mais completa aplicação da teoria da evolução ao problema da educação.
John Dewey não aceita a educação pela instrução proposta por Herbart, propondo a educação pela ação; critica severamente a educação tradicional, principalmente no que se refere ao intelectualismo e a memorização. Para Dewey a educação tem como finalidade propiciar à criança condições para resolva por si própria os seus problemas, e não as tradicionais idéias de formar a criança de acordo com modelos prévios, ou mesmo orientá-la para um porvir.
Jean Piaget revolucionou as concepções de inteligência e de desenvolvimento cognitivo partindo de pesquisas baseadas na observação e em entrevistas que realizou com crianças. Piaget fez pesquisas sobre as características do pensamento infantil com crianças francesas e também com deficientes mentais. De acordo com suas teorias, o professor não deve apenas ensinar, mas sim e antes de tudo, orientar os educandos no caminho da aprendizagem autônoma. Para Piaget o principal objetivo da educação é criar indivíduos capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram. 
Lev S. Vygostsky construiu sua teoria tendo por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento, sendo essa teoria considerada histórico-social. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. A cultura fornece ao indivíduo os sistemas simbólicos de representação da realidade, ou seja, o universo de significações que permite construir a interpretação do mundo real. Ela dá o local de negociações no qual seus membros estão em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significações.
Para Paulo Freire, vivemos em uma sociedade dividida em classes, sendo que os privilégios de uns, impedem que a maioria, usufrua dos bens produzidos e, coloca como um desses bens produzidos e necessários para concretizar a vocação humana de ser mais, a educação, da qual é excluída grande parte da população do Terceiro Mundo. Refere-se então a dois tipos de pedagogia: a pedagogia dos dominantes, onde a educação existe como  prática da dominação, e a pedagogia do oprimido, que precisa ser realizada, na qual a educação surgiria como prática da liberdade.
Muitos outros filósofos, educadores e pensadores contribuíram para o avanço da educação, mas até agora não definimos o que é educação e qual sua finalidade. Com todas as definições e interpretações existentes, variadas e distorcidas ainda enfrentamos a dificuldade de exercer a função de educador e rastejamos em pleno século vinte e um, no terceiro milênio depois de Cristo, na busca de uma resposta, ou várias respostas a essas perguntas: o que é EDUCAÇÃO e qual sua FINALIDADE?      


Educação e sua finalidade

            Já ouvimos muito frases como: “Sem Educação e Cultura um país não se desenvolve”, ou “Um país não chega ao ‘Primeiro Mundo’ se não investir na Educação” e a mais usada por políticos-politiqueiros: “...porque os jovens são o futuro da nação...”.
            Educação vem de educar, do latim EDUCARE (extrair, revelar, descobrir). Na teoria significa tanta coisa que na prática ninguém sabe o significado.
            Na escola os professores perguntam aos alunos se os pais não deram educação, pois chegam às escolas mal-educados. Em casa os pais perguntam aos filhos se não aprenderam educação com os professores. Os educandos ficam com várias interrogações, pois não sabem de quem é a obrigação de ensinar educação. E como cobrar algo de alguém se esse alguém não sabe o que é aquilo que se cobra? Muitas vezes nem mesmo quem cobra educação sabe o que é essa tal educação.
            Quando dizemos educação nos referimos, não só a que em geral se ministra nas escolas, como, principalmente, a que recebemos em casa.
            Educar, no sentido etimológico do verbo, quer dizer: trazer de dentro para fora. Revelar o que há por dentro. Educar é desenvolver potencialidades.  Portanto, a educação é a ação semelhante ao parto, como dizia Sócrates. A mãe dele, Fenareta, era parteira. Então, dizia esse filósofo, “ao tempo que minha mãe faz partejamento de bebês, eu o faço de idéias e conhecimentos”.
            Pais e professores são mestres, educadores, ou seja, professores responsáveis pela revelação do conhecimento, trazendo-o de dentro dos educandos para fora.
            Esse método, utilizado por Sócrates é designado por maiêutica e consiste em levar o educando a responder suas próprias perguntas, pois acredita-se que já saiba a resposta.
            Para Platão, o processo de aprendizagem deve despertar no aluno o conhecimento, ou seja, aprender é um despertar.
            Jesus Cristo afirmou que “o Reino de Deus está dentro de nós mesmos”, sugerindo que o conhecimento não é algo exterior, mas interior, vem de dentro do homem.
            Certamente o mundo exterior, o meio em que vivemos é fundamental para a construção do conhecimento, mas, segundo Sócrates, Platão, Khalil Gibran, Jesus Cristo, o homem deve buscá-lo em seu interior.
            Neste caso, pais e mestres, que tentam educar pela imposição de modelos, se dão mal. Porque os modelos vêm de fora, e a educação, de dentro. É preciso equilibrar a potencialidade do conhecimento interior do ser humano com o mundo exterior, com o meio.
Na verdade o problema está na relação entre a sociedade e a escola. O reflexo de crises sócio-econômicas provoca mudanças comportamentais aliadas às mudanças que ocorrem com a evolução e a revolução da humanidade.
Qual, então, a verdadeira função de educadores, pais e mestres?


A Escola

            A escola é o lugar onde se faz amizades, se constroem conhecimento e se relacionam seres humanos. E todo lugar assim está sujeito à intriga, mesquinharia, inimizade, inveja, desentendimento, discórdia, confusão. Mas tudo isso é superado pela força da amizade e companheirismo entre os pares que atuam na escola. Desde que estejam dispostos e comprometidos a construir um “espaço” melhor e torná-lo num ambiente agradável e saudável.
            A escola é muito mais que armazéns ou depósitos de informações muitas vezes inúteis. Muito mais do que Assistência Social ou Posto de Saúde. Ela também socorre educandos que se machucam e aqueles mais necessitados e carentes de afeto, roupa, alimento e puxão de orelha.
            A escola é liberdade, autonomia, ousadia. Mas precisa de alforria. Precisa romper os grilhões da politicagem que usam demagogicamente seu discurso em benefício próprio, mas não estão preocupados com o destino daqueles que freqüentam a escola.
            A escola é responsável por formar e acolher o filho do empreendedor, do empresário, do estadista, do comerciante, do professor, do lavrador, do policial, do vereador, do prefeito, do faxineiro, do gari, do presidiário, do desempregado, enfim, em geral, a escola recebe todos que queiram freqüentá-la, ou que seja obrigado a permanecer em seu recinto.
            Escola é o espaço dos conflitos, da dinâmica e do comodismo social. Da desigualdade social e da diferença cultural, racial e financeira.
É lugar de alegria e de tristeza. De acolhimento e desabrigo. De inclusão e exclusão. De quem sabe muito e de quem pensa que sabe alguma coisa. É lugar de contradições.

 O Aluno

Meu primeiro dia na escola como aluno, na pré-escola, foi assustador. Tive que me separar de minha mãe, mas não chorei nem fiz escândalo, fiquei triste, pois havia a minha frente um mundo novo a enfrentar, longe do aconchego e da proteção do lar. Muitas crianças diferentes e estranhas. Umas mais calmas outras muito agitadas e assustadoras. Adultos com cara fechada, pareciam furiosos com alguma coisa, talvez com a presença das crianças. Era uma escola administrada por madres e chamava-se “Casa das Crianças”, em Bragança Paulista. Hoje é uma escola particular e tem outro nome.
No decorrer do ano fui me acostumando àquela nova vida. Difícil era encarar o mesmo ritual todo dia, o ano inteiro. Antes de entrar para a sala de aula fazíamos uma oração para saudar os professores e iniciarmos bem nosso dia. Entrávamos em fila para a sala de aula. Na sala a professora distribuía algumas folhas de sulfite e tínhamos que desenhar qualquer coisa, eu não sabia o porquê daquilo, mas desenhava alguma coisa e no fim descobria que desenhava sempre a mesma coisa.
No intervalo sentávamos a mesa no refeitório para nos alimentar. Era sempre uma sopa “horrível” feita de fubá e verduras. Hoje adoro esse prato, mas uma criança odeia por mais nutritiva que seja. Se não comesse uma das madres ameaçava com castigos e “enfiava goela abaixo” aquela “suculenta” refeição, colher por colher. Talvez por isso odiasse tanto aquela sopa.
Logo após o intervalo voltávamos para a sala, não me lembro de ter brincado com meus colegas na pré-escola na hora do intervalo, pode ser que minha memória seja falha ou pode ser que não tenha brincado mesmo. Na sala após o intervalo a professora distribuía colchonetes, cobertores e travesseiros para cochilarmos. Éramos obrigados a dormir mesmo sem sono e quem não dormisse ia conversar com o diretor que felizmente ou não eu nunca vi e nem sei se existia de verdade. Mas somente o medo de encarar alguém que nunca vimos e pensamos ser alguém de outro mundo já arrepia todos os pêlos do corpo.
Tenho poucas lembranças daquele lugar, não me lembro nem do nome das professoras, mas tenho a imagem daquelas madres e daquela sopa em minha memória até hoje. Não fiquei traumatizado, ou talvez tenha ficado, mas hoje adoro sopa e não tenho nada contra madres.
Na primeira série do ensino fundamental fui estudar numa escola maior onde freqüentei até a quarta série. Estava quase alfabetizado, mas ainda tinha muita dificuldade para ler, e escrever ainda era pior. Sou canhoto e minha letra era horrível, não mudou muito, mas já leio e escrevo um pouco melhor. A professora queria que eu escrevesse com a mão direita, tentou muitas vezes para que eu aprendesse, mas não deu certo, fiquei canhoto.
Da primeira à quarta série tive muitos amigos maravilhosos que hoje nem sei se estão vivos. Lembro-me da professora Célia da terceira e quarta série, foi a professora mais querida naquela escola. O diretor era muito temido pelos alunos, senhor Antonio, um homem alto, magro, bravo, sério, “feio” e rígido. Bastava uma peraltice e o senhor Antonio dava um tapa na bunda do aluno. O tapa estalava na bunda, ecoava pela escola inteira e todos os alunos sentiam  - e gritavam “ai” em pensamento – por causa do tapa dado pelo diretor. Poucos se atreviam desafiar as regras da escola.
            Entrávamos em fila na sala de aula após uma oração universal desejando saúde, paz e sabedoria a nossas mestras e aos alunos. Uma vez por semana cantávamos o hino nacional e antes de iniciarmos a aula já dentro da sala fazíamos outra oração para agradecer por mais um dia de vida entre outras coisas.
            A sopa servida na hora do intervalo não era obrigatória, “graças a Deus”. Eu levava lanche de casa para não encarar a sopa. Vários amigos sentavam-se juntos, juntávamos os lanches e dividíamos tudo, era um pic-nic, um verdadeiro banquete.
            Adorava aquela escola, era apaixonado por ela e pelas professoras. Mas o que mais me fascinava lá eram as peças de teatro. Sempre tinha teatro na escola. As peças eram montadas pelos alunos mais velhos. O figurino, o cenário, os personagens, as luzes, as músicas, eram tão reais e fantásticas que eu viajava. Isso nunca esquecerei.
            Uma vez por semana o padre Aldo Bolini ou o padre Donato Vaglio, com que fiz a Primeira Comunhão, entravam na sala de aula para “catequizar” os alunos católicos e prepará-los para a Primeira Comunhão. Eu gostava mais do padre Donato porque era “mais bonzinho” e carismático, o padre Aldo era muito bravo e dava cascudos na cabeça dos alunos que não acertavam as respostas das perguntas que fazia. Porém, sobrevivi. Foram quatro anos maravilhosos estudando na Escola Estadual Coronel Francisco de Assis Gonçalves de onde até hoje tenho boas lembranças e saudades.
            A partir da quinta série fui estudar na Escola Estadual Cásper Líbero, onde cursei até o terceiro ano do ensino médio. Estudei no prédio antigo onde mais tarde passou a funcionar a Diretoria Regional de Ensino de Bragança Paulista.
            Nunca fui um excelente aluno, sempre tive dificuldades em expressar-me em público, era tímido, quieto, mas tinha muitos amigos e sabia respeitar meus professores. Mas também conversava um pouco durante a aula.
            Cursei a sétima série duas vezes, o primeiro ano do ensino médio duas vezes, mas “consegui” concluir o ensino médio. Depois cursei a faculdade.
            Na Cásper Líbero o que mais adorava além dos professores, especialmente algumas professoras que nos apaixonamos quando somos adolescentes, dos amigos e das meninas, era a biblioteca. Aquela sala enorme cheia de livros novos e velhos, repletos de histórias interessantes e fascinantes. Sinto o cheiro dos livros até hoje. Depois que passei a me interessar pela leitura, descobri um mundo mágico. Devorava os livros. A bibliotecária, permitia que eu pegasse de três a quatro livros por semana. Lia um por noite. Gostava mais dos livros de aventura. Todo livro é uma aventura. Gostava de todos.
            É muito tempo dentro de uma escola. Passamos boa parte de nossa vida na escola. É uma fase importante. Muitas vezes não sabemos disso e só valorizamos décadas depois. Assim são os alunos.
Somos todos alunos na escola da vida. Se não estamos matriculados como alunos numa instituição de educação, estamos aprendendo com a vida as lições que esta nos ensina.
Desde que nascemos vivemos em constante e profunda aprendizagem. Primeiro com os pais – principalmente a mãe – depois com os demais membros da família, os parentes e amigos que nos cercam e então com a escola onde ampliamos a relação social e aprendemos coisas estabelecidas por professores conforme a legislação impõe, obriga, exige porque legisladores entendem que sejam importantes para a sociedade.
O aluno é um ser vivo capaz de interpretar o mundo a seu redor e vivê-lo com emoção. No início de sua vida escolar é como uma pedra preciosa a ser lapidada e com o tempo as impurezas vão desaparecendo e fica apenas a pureza da jóia com um brilho fascinante.
Ao chegar à escola o aluno está curioso para conhecê-la, saber quem serão seus professores, interessado em desenvolver atividades propostas por seus mestres.
No primeiro dia de aula são tantos assuntos sobre as férias, a ansiedade de contar tudo de uma só vez, conhecer novos amigos, paqueras, enamorados.
O aluno é um ser que busca decifrar o mundo para que possa entendê-lo melhor. Busca através do conhecimento ser feliz.

O Professor

Ser professor é ser incomum, singular, impar. Suas qualidades estão além do que pode imaginar. É ser amado e odiado ao mesmo tempo, mais amado que odiado, felizmente. É ser moderno e arcaico simultaneamente. É estar certo e errado concomitantemente. É ser mestre e discípulo na mesma tautocronia. É ser herói e vilão com o mesmo sincronismo. É ser “legal e chato” ao mesmo tempo. Ser professor é ser mortal e imortal.
Meu primeiro dia numa sala de aula como professor foi emocionante. Semelhante a um orgasmo, sem exagero, êxtase total.
Alguns anos de faculdade preparando-me para lecionar criaram um ideal platônico – talvez todo ideal seja platônico – um desejo profundo de entrar numa sala de aula e “dar aula”. É o sonho de todo professor, professorar, ensinar, ministrar a disciplina que estudou para lecionar. Ser formador de opiniões, revolucionar a educação e a sociedade.
São tantos sonhos, tantas ilusões, desejos, ideais, esperanças, crenças e fantasias. É como ser adolescente e estar apaixonado. Ser professor é ser apaixonado, é estar apaixonado, é sentir muito tesão pela função que ocupa, é ser e estar viciado e dependente – física e quimicamente – de escola, de alunos, de desafios e de encrencas.
Meu primeiro dia foi excitante, como o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro carro, a primeira moto… a primeira carraspana. Foi a realização de um sonho.
Ser chamado de professor, senhor, mestre, mesmo com pouca idade, pouco mais velho que os alunos, é uma experiência inexplicável, inigualável, sem comparação, não existe situação semelhante, só sentindo na pele para entender a sensação.
É preciso vestir o “guarda-pó”, pegar estojo, apagador e giz, entrar numa sala de aula de verdade cheia de alunos de verdade e “encarar” cada um nos olhos. Isso é ser professor.


A escola de que se fala e a escola de que se sofre

            Para continuar este ensaio é preciso esclarecer que vivenciamos duas realidades a respeito da escola público-estatal no Brasil: a escola de que se fala e a escola de que se sofre.
            A escola de que se fala – estadual e municipal, ou seja, estatal – é aquela que a propaganda oficial governamental veicula na mídia, muitas vezes exagerada, outras equivocada. A propaganda oficial das instituições governamentais mostra escolas que recebem equipamentos de última geração para apoiar o trabalho docente e melhorar a aprendizagem. Os professores são bem remunerados e capacitados, os educandos são bem educados e comportados, sem nenhum problema sócio-econômico. As estatísticas sempre comprovam os bons resultados. Mas será que podemos confiar nas estatísticas?
A escola existe nos papéis, muitas vezes não funcionam tão bem na realidade. Algumas escolas de papéis nem existem de verdade, servem apenas para captar verbas da Educação que nunca chegam à escola de papel porque não existe escola. Esta verba então vai para o bolso de “ALGUÉM”.
            A escola de que se sofre é aquela que existe na vida real e não nos contos, é a escola que reprime, oprime, emburrece, omite, castra, e contribui com a escola de que se fala – a escola de papel -, é cúmplice dela, pois sofre calada e não denuncia as falhas existentes no sistema educacional e ainda recebe acusações de ser responsável pela falência da sociedade.
            Na escola de que se fala, na escola da propaganda, a escola é ideal, é perfeita, recebe todos os livros didáticos solicitados, os alunos são educados, usam uniformes e vão à escola para estudar, sentem prazer em freqüentar a escola. Os professores adoram lecionar, os pais participam das reuniões e contribui para a organização da escola, o governo (federal, estadual e municipal) através das secretarias de educação conhece a realidade das escolas instaladas em prédios novos, sadios, seguros e conservados.
            Na escola de que se sofre a realidade é oposta: os livros didáticos recebidos são sempre outros, quase nunca os escolhidos, os alunos são educados, mas também rebeldes e são reais, não ideais, muitos alunos vão à escola contra a própria vontade, porque o Conselho Tutelar visitou seus responsáveis e exigiu a freqüência porque sem presença na escola não recebem bolsa-escola, bolsa-família ou outros “auxílios doados” pelo Estado. Há muitos casos de famílias que usam o dinheiro “doado” pelo governo para depositar créditos no telefone celular, pois sabem que receberão cestas básicas e roupas doadas por igrejas e vizinhos que pensam que estão ajudando. Muitos alunos não usam uniformes, não prestam atenção nas aulas, estão presentes na sala de aula apenas fisicamente, mas as mentes estão em outra dimensão. Os professores são muitas vezes ofendidos, desacatados, desvalorizados, humilhados, ameaçados e até agredidos por alunos ou pais de alunos e até por colegas de trabalho.
            Na escola de que se sofre muitos pais não participam das reuniões na escola e nem sabem a série que o filho está matriculado ou cursando, quando está cursando. Alguns prédios escolares estão sucateados, pichados, depredados, localizados em terrenos superfaturados e inadequados para uma escola, como beira de rios, brejos, barrancos.
            A escola de que se fala existe apenas no papel porque na realidade o que vivenciamos é a escola de que se sofre.


A escola de que falamos


            A escola de que falamos é a escola de papel. A escola do governo, aquela que aparece na televisão toda equipada e preparada para receber todos os tipos de alunos das mais variadas etnias, credos, classes sociais e deficiências. É uma escola estruturada, projetada para acomodar alunos e professores de maneira confortável e agradável. É uma escola com salas de aula construída com material acústico para absorver o excesso de barulho e permitir a boa audição durante a exposição do professor. As salas de aula também possuem isolante térmico para que fique “quentinha” no inverno e “fresquinha” no verão. A iluminação é excelente e permite a boa visão para que os alunos possam ler, escrever e estudar sem que seus olhos sejam prejudicados por falta de iluminação. Na escola de que falamos existe biblioteca de verdade - e não somente sala de leitura sem livros e sem leitores - e muitos livros a disposição de alunos e de professores com bibliotecário formado e capacitado para organizar os livros e orientar os leitores. O prédio escolar está sempre instalado nos terrenos mais caros em bairros “nobres” de alto valor imobiliário para valorizar mais a escola e seus “usuários”.
            Os professores da escola de que falamos, a escola de papel, são intelectuais preocupados com a formação de cidadãos e a transformação da escola em centro de produção de saber. Sempre trabalham em equipe, cooperam entre si para o bom funcionamento da escola e sempre tem apoio de diretores, supervisores e secretários de educação. Os professores estão sempre motivados pelo alto salário, pelo prêmio que recebem anualmente em forma de bônus como incentivo para que trabalhem cada vez mais pela educação.
            Os alunos são sempre dedicados, estudiosos, uniformizados e conseguem os melhores resultados em todas as avaliações internas e externas justificando o ingresso de muitos nas universidades federais e estaduais, ou seja, aquelas que o aluno não paga. O aluno não paga para estudar desde o ensino infantil até o ensino universitário. Recebe todo material necessário para seus estudos e são preparados pelos melhores professores.
           

A escola de que sofremos

            A escola de que sofremos é a escola real que existe fora do papel, no concreto mesmo. É a escola construída de bloco de cimento – com orçamento superfaturado -, com salas apertadas, abafadas no verão e geladas no inverno causando desconforto, incômodo e mal-estar. O som se espalha pela escola toda atrapalhando a aula da sala ao lado, pois não há acústica adequada para isolar o barulho e permitir uma audição agradável. A iluminação é precária, muitas vezes funciona apenas metade das lâmpadas porque a outra metade está queimada.
            A maioria das escolas não possui biblioteca, mas depósito de papéis – livros velhos e embolorados – estragando ou calçando armários. Quando tem uma pseudo-biblioteca esta não pode ser chamada assim por não ter um bibliotecário formado para organizá-la, portanto é chamada de sala de leitura e quem cuida dela é sempre um professor readaptado que muitas vezes apesar da boa vontade, sofre por não ser capacitado para exercer tal função.
            A escola de que sofremos recebe alunos de várias etnias, credos, classes sociais e deficiências, mas não está preparada e adaptada para recebê-los.
            As salas de aulas são superlotadas com quarenta e até cinqüenta alunos por sala.
            A escola é construída em terrenos a beira de rios, brejos, barrancos, terrenos de menor valor imobiliário em bairros de moradores pobres – para atender famílias carentes claro.
            Os alunos são indisciplinados, barulhentos, muitos não usam uniforme escolar, não carregam materiais – livros, cadernos, canetas, etc. - pois acham pesados demais. Freqüentam a escola porque são obrigados por lei e assim recebem benefícios do governo como: bolsa escola, bolsa família, bolsa..., mas utilizam tais benefícios para depositar crédito em aparelhos de celular, comprar bala e chicletes e outras guloseimas.
            Na escola de que se sofre depois do processo de municipalização, os prefeitos usam o dinheiro da Educação para outros fins, menos para a melhoria da Educação. Muitos funcionários são contratados sem ter qualificação. São cabos eleitorais, parentes, amigos, amantes. Certamente existem muitos funcionários que são eficazes e fazem jus ao cargo que ocupam, mas são poucos. Os diretores não podem reclamar da péssima qualidade das escolas porque ocupam cargo de confiança.
            Existem muitas escolas boas nas redes municipais de educação, felizmente a maioria, mas existem muitas que deixam muito a desejar por causa da politicagem.
De forma geral, os professores não são unidos. Reclamam o tempo todo dos alunos, da direção, da secretaria de educação, do governo, do salário, de tudo e mais um pouco.
            Muitas pessoas – diretores, vereadores, prefeitos, deputados, governadores e até professores - mascaram a realidade das escolas.
            Os professores – com muitas exceções – criticam a escola, a educação, os dirigentes, reclamam dos HTPC´s, das avaliações, dos projetos da Secretaria de Educação, mas quando estão diante do Diretor, da Secretária de Educação, do Prefeito, do Governador, sorriam e fazem fila para cumprimentá-los e abraçá-los. São hipócritas também os professores que agem assim.


Existe vida pós-sala de aula?

            Muitos professores reclamam das condições de trabalho, do baixo salário, do abuso de poder dos diretores, da falta de respeito dos alunos, da falta de reconhecimento da sociedade, da falta de investimento adequado do governo. As queixas são diversas. A insatisfação dos professores é grande. Muitos acreditam que suas vidas se desgraçaram. O pior é que com tanta reclamação e falta de esperança, os professores que sofrem ainda continuam sofrendo e reclamando e não deixam o magistério por falta de opção e até por falta de competência e habilidade para atuar em outras áreas.
Confesso que fiquei mais triste após alguns anos em sala de aula. Era mais alegre, disposto. Deve-se considerar que estou mais velho, mais maduro, desgastado, chato e rabugento. Talvez seja a “síndrome do professor”, ser chato e rabugento. As dificuldades pessoais, familiares, profissionais, financeiras, agravam os problemas. Não podemos culpar os alunos, nem os pais e nem mesmo o governo. É um conjunto de fatos que constroem situações agradáveis e também desagradáveis.
            É verdade que muitos professores não se esforçam para melhorar a aula nem colabora para a melhoria do ensino, mas a maioria participa, luta, batalha para construir uma escola melhor, uma escola ideal, a escola de que falamos.
            Na escola de que falamos, os professores estão felizes, sorridentes e contentes com o que ganham e acreditam na vida pós-sala de aula. Mas na escola de que sofremos, os professores só tem uma esperança: a de que o professor não reencarna pois paga todos os seus pecados na sala de aula e vai direto para o paraíso após a morte.
            O professor é tratado como um ser descartável. Enquanto serve à escola, à secretaria da Educação, à comunidade, é útil, é querido. Assim que deixa o cargo (exonera ou aposenta) é substituído e logo esquecido. É descartável, é descartado.
            O professor não é descartável, mas para a sociedade burocrática o professor não passa de um funcionário de papel, alguém que supostamente está ocupando um cargo em algum lugar do mundo e “ensinando” algo ou qualquer coisa que esteja de acordo com as leis estabelecidas para que o ensino funcione como deve funcionar. Para a burocracia estatal professor é apenas número, sai um entra outro. O que importa é que tenha alguém dentro da sala monitorando os alunos para que não se matem.
O professor trabalha o dia todo. Acumula cargo no Estado e no Município. As vezes trabalha em escola particular também. Leciona para quarenta e cinco alunos em cada sala das sete horas da manhã e muitas vezes até as onze horas da noite. Como é possível ser um bom professor? Como é possível que a aula seja maravilhosa todo tempo? O professor só faz isso porque ganha pouco, ou o que ganha não é suficiente para sustentar sua família.
No papel o professor existe e ganha bem, os alunos existem e são educados, a escola existe, a educação existe, papai-noel existe, coelhinho da páscoa existe...
Mas afinal, existe vida pós-sala de aula?



Quem não cola não sai da escola

            Na escola de que falamos o aluno não cola, mas na escola de que sofremos muitos alunos colam. Nem todos os educandos trapaceiam, mas boa parte prefere o risco de ser punido por estar colando do que ficar com nota baixa por não colar, afinal, para o aluno que cola e trapaceia, os fins justificam os meios.
Esta crença está presente entre muitos alunos do ensino fundamental ao ensino superior. Quantos estudantes já tentaram colar numa avaliação. Muitos conseguiram, outros foram interceptados pelo professor que tem de ter muitos olhos em dia de “prova”. Mas quem nunca tentou colar que atire a primeira cola.
Alguns professores confessaram que colaram em concurso público. Não podemos generalizar, pois alguns não são todos nem a maioria, mas é muita falta de caráter e contraditório ao que pregam na sala de aula. Como exigir que um aluno não cole?
Muitas vezes professores não querem ler ou escrever, então como cobrar dos alunos leitura e escrita?
O professor muitas vezes faz atividades paralelas enquanto participa do htpc. Como cobrar dos alunos quando fazem atividades de outros professores na aula?
Em palestras, os professores conversam, não prestam a devida atenção, então como cobrar a atenção e o interesse dos alunos?
Como exigir que o aluno acredite na Educação se o próprio professor propaga uma imagem negativa sobre a Educação?
Como cobrar motivação dos alunos e exigir que não colem se o professor não serve de exemplo?
            Grande parte dos estudantes acredita que o que aprendem na escola não serve e nunca servirá para nada, às vezes com razão. Muitos crêem que a única maneira de ser bem sucedido é colando, é trapaceando, corrompendo a sociedade. Compra-se um certificado, um diploma e tudo está resolvido. Nem é preciso comprar o diploma porque o Estado está “doando” para muitos alunos.
            Uma aluna da 7ª série de uma escola estadual tentava colar na avaliação de história quando o professor surpreendeu-a. Como era de esperar, negou que estivesse colando, e com a cara de pau lustrada com óleo de peroba disse que estava apenas consultando suas anotações sobre o assunto da prova. Sem poder argumentar mais, disse que sua mãe havia instruído para colar, pois quem não cola não sai da escola.
            É difícil acreditar que uma mãe dissesse isso para a própria filha, mas suas amigas de classe confirmaram o conselho materno. Esta mesma aluna já fora aconselhada pela mãe a abortar uma gravidez “acidental” e abortou.
            O problema existe e não acabará tão logo, talvez nunca acabe. Muitas vezes o aluno sente-se inseguro e prefere escrever um resumo do conteúdo num pedaço de papel, no braço, na calça ou na mesa. O medo de tirar nota “vermelha”, zero, é tão grande que não pensa nas conseqüências de ser “capturado” pelo professor que tenta fiscalizar cada um dos candidatos no dia da avaliação. Outros colam por preguiça de estudar ou pior, acreditam que tudo se resolve sem esforço por meio de recursos “ilegais”. A conseqüência disso é um ser humano incapaz de respeitar regras, sem princípios de honestidade, de lealdade, de responsabilidade e de compromisso com ninguém e com nada. Este ser descobre que pode ser “bem sucedido” sem esforço.
            Ao preparar uma cola, o estudante está estudando e relembrando o assunto que será abordado no teste. Na tentativa de elaborar a cola acaba sintetizando o conteúdo. Isso é bom. Mas quando cola, ele engana o professor. Ao enganar o professor, indiretamente está enganando seus pais e a sociedade. Quem consegue enganar alguém e percebe que pode obter lucro com isso também pode querer enganar outras pessoas com mentiras mais graves e conseqüências mais trágicas.
            Um dia este indivíduo será um profissional e pode querer continuar obtendo vantagens fáceis enganando e lesando seu semelhante.
            Numa outra sala de aula de 7ª série com 45 alunos – pois esta é a média por sala de aula nas escolas estaduais do Estado de São Paulo -, 27 foram surpreendidos colando. Na mesma escola os alunos de outras séries de ensino fundamental e médio também tentam colar na prova. Para estes alunos, colar faz parte da vida escolar, é normal.
            Seria falta de caráter dos alunos, falta de instrução e falta de transmissão de conceitos e valores dos pais? É um vício cultural? É o reflexo da falta de ética de muitas autoridades e representantes governamentais? Difícil afirmar com precisão e segurança onde e como começou o problema.  Talvez nada disso seja motivo para a falta de ética. Talvez isso tudo e mais um pouco.
            O problema é o tipo de sujeito que está sendo formado pelas instituições educacionais. Que princípios as famílias estão transmitindo a seus descendentes? Que espécie de cidadãos estão compondo a sociedade? Se a sociedade brasileira for composta por indivíduos sem ética teremos uma sociedade sem ética. Numa sociedade cujo indivíduo se corrompe, o povo só pode se corromper.
            Quem cola não só engana o professor. Trapaceia. Não tenta aprender, pois sabe que basta um “jeitinho” e tudo é resolvido. A cola na prova, a identidade falsa, o pagamento de propinas, o desvio de verbas públicas – da educação e da previdência -, a compra de votos, o mensalão, entre outros golpes realizados por pessoas inescrupulosas.
            Então porque não colar? Porque o sujeito que age honestamente não prejudica ninguém e conquista seu espaço por mérito, sem trapaça. Exercitando seu conhecimento com responsabilidade está confirmando seu caráter e seus princípios. Não enganando e não trapaceando torna-se uma pessoa confiável, fiel, leal e esperamos que incorruptível.
            Portanto é necessário encontrar uma solução para este problema. Não dá para crer que os pais consigam de um dia para o outro lapidar a personalidade e o caráter de seus filhos. Também não é possível permitir que os estudantes continuem colando e já não adianta mais falar sobre formar cidadãos críticos, conscientes, honestos e blá, blá, blá. Não conheço solução para este caso.
Como professor sofre em dia de prova! Então entregue a prova a seus alunos e diga-lhes: Quem não cola não sai da escola… Honestamente! Boa prova!


Sonho ou pesadelo?

A escola dos sonhos não pode ser transformada em escola dos pesadelos como vem acontecendo. Há momentos que tudo parece um sonho, um conto de fadas. Quando iniciamos a carreira de professor ou educador, tudo é tão fascinante. Logo que saímos da “universidade”, estamos cheio de esperanças, ideologias, sonhos, utopias, vontade de lecionar. É tudo tão lindo, maravilhoso, o primeiro salário anima ainda mais, reforçando a vontade de realizar mais e realizar-se como professor.
Depois vem o momento da decepção, das desilusões, do arrependimento. O sonho virou pesadelo. O professor já está desgastado, cansado, revoltado. Mas nem tudo está perdido. Há altas e baixas na Educação, uma oscilação radical de um extremo a outro. Logo chegará a fase melhor, com a ajuda do professor, peça fundamental para a melhoria da Educação.
Escolas boas e ruins existem em todos os lugares do mundo. No Brasil nem todas as escolas são ruins, apenas algumas poucas são péssimas. O que está ruim no Brasil é a situação sócio-econômica, a grande desigualdade social que provocam o desinteresse da população pela educação e a descrença num futuro melhor. Esse problema reflete na escola, nas salas de aula, principalmente de escolas estatais (estaduais e municipais). A escola neste caso funciona como esgoto da política nacional. Tudo que é decidido no Congresso Nacional, na Assembléia Legislativa e nas Câmaras Municipais, afeta o cotidiano do povo e “deságua” na escola.
A violência nas escolas não é fruto da Educação, mas de um conjunto de fenômenos sociais que reflete na sociedade.
A sociedade é dinâmica, muda constantemente. As mudanças provocam insegurança, desconforto e medo. A conseqüência disso é a violência na sociedade e nas escolas.
A falta de uma canalização para escoar a violência sem prejuízo da sociedade causa a agressão contra os indivíduos e contra instituições como escolas, hospitais, delegacias e outras.
Toda essa violência não é de responsabilidade da escola. É um problema social grave que deve ser resolvido com propostas sérias e descentes através de projetos sociais. Além de projetos a escola tem papel importante na construção de uma sociedade menos violenta.
Neste caso o papel da escola é o de colaborar com a sociedade na formação de sujeitos capazes de superar seus problemas através da aprendizagem para que possam mudar e transformar a sociedade. A escola em parceria com a família, com empresas, com o Estado – em parceria -, com as Igrejas – todas – e com a sociedade deve unir forças para “salvar a humanidade.
O professor precisa ter a consciência de que ele é capaz de transformar a sociedade através do que ensina a seus alunos. Isso é formar cidadãos – críticos e conscientes. Críticos e capazes de questionar a realidade e a própria postura na sociedade e conscientes para participarem da transformação da situação que vivem ou se encontram no momento para uma condição melhor de vida. Para transformar o pesadelo em sonho!
           


CTRL/C – CTRL/V
Geração xerox

Na História da Educação o desinteresse sempre esteve presente. Sempre existiram alunos que não gostam de estudar. Só que antigamente freqüentavam as escolas apenas aqueles que tinham condições financeiras para estudar, que não precisavam trabalhar para ajudar os pais com a renda familiar.
Após o processo de democratização das escolas estatais, o ensino fundamental tornou-se obrigatório para crianças e jovens em idade de freqüentar a escola. Desde que os educandos tenham menos de dezoito anos de idade, os pais são obrigados a matricular e acompanhar os filhos, verificando a freqüência e o rendimento escolar – claro que isso nem sempre é feito – evitando que haja evasão escolar. Mesmo que os pais sejam pobres, são obrigados por força da Lei a manter os filhos menores na escola.
Atualmente, os pais são responsabilizados pela baixa freqüência dos filhos na escola e podem até responder processo por irresponsabilidade.
O resultado foi o aumento de estudantes, ou alunos matriculados na rede estatal de educação, abrangendo todas as camadas sociais, sem exceção.
Do ponto de vista democrático é a coisa certa, pois, todos os membros da sociedade devem freqüentar escola e possuir grau de instrução satisfatório ao desenvolvimento individual e coletivo.
Mesmo assim, muitas crianças não eram matriculadas pelos pais – contrariando a lei – porque precisavam trabalhar – em olarias, carvoarias, pedreiras, roça, entre outras atividades – para ajudar a complementar a renda familiar.
Por outro lado, os governos exigem a presença dos alunos nas escolas sem criar uma forma de mantê-lo por vontade própria, pois, muitos jovens vão à escola porque são obrigados por lei e porque recebem “doações” do governo para permanecerem na escola. Mas só estão presentes fisicamente, pois suas mentes estão em outra dimensão.
O número de matrículas cresceu com o aumento da população, mas graças também as bolsas: família, escola, entre outras “esmolas” utilizadas pelo governo como mecanismo para aumentar a pobreza, a desigualdade social e controlar a sociedade com a política do clientelismo. É através de mecanismos de “proteção”, “assistência”, “doação”, tudo por conta do Estado, que a população é dominada. Esse sistema impede que o indivíduo trabalhe e lute para conquistar seus sonhos, pois são controlados e manipulados por falsos benefícios do Estado. Quem mais ganha com isso tudo são os politiqueiros profissionais que vivem à custa da miséria, da carência e da ignorância do povo.
O desinteresse dos alunos que freqüentam a escola e dos professores não é novidade. A desmotivação de professores causada pela indisciplina dos alunos é um problema social antigo que vem se agravando cada vez mais.
Sempre existiram alunos que colavam, copiavam textos de livros e entregavam como trabalhos, isso não é surpresa, mas hoje, com o avanço tecnológico surgiu a “geração xerox” e a “geração ctrl/c – ctrl/v”. É a geração de estudantes em todos os níveis que copiam textos da internet e imprimem como trabalhos escolares. Muitos planos de aula dos professores são copiados todos os anos.
Vivemos um período de falta de criatividade. Falta de ousadia. As crianças brincam com bonecas que falam várias frases, fazem xixi e cocô. A menina fica parada, nem se meche, pois a boneca faz de tudo. Jogos de computador e derivados mais evoluídos do videogame tiram a criatividade dos garotos quem nem brincam mais com bola. As crianças não pulam corda, amarelinha, não brincam com bambolê, não jogam peteca, fubeca, não rodam pião, não empinam pipa, não andam com carrinho de rolimãs, não fazem bonecas de pano para brincar, estilingue, entre outros brinquedos e brincadeiras que exigiam “preparo físico”, criatividade e pouco dinheiro. Os brinquedos são individuais e acabam com a sociabilização, criatividade, interação e integração.
Pior, a sociedade que só copia, não cria, não inventa, só imita o que aparece com a televisão que se tornou a babá de muitas crianças brasileiras, está se tornando uma sociedade apática, desmotivada, fria, efêmera, caótica, babaca, mais acomodada do que já era, estúpida, arrogante, egoísta e tapada.


Escola Pública ou Estatal?

            Quando a política for separada da educação, digo a politicagem, a educação melhorará. A educação é um movimento político, mas não deve estar a mercê de politiqueiros que usam a bandeira da educação apenas para se promoverem em períodos de reivindicações dos profissionais da educação, em palanques de greve ou através de “líderes sindicais” que só carregam a bandeira e só vestem a camisa da educação em época de eleições.
            Muitos políticos falam que a escola pública estatal está ótima, porém, poucos matriculam os filhos nela. Por quê? Porque são demagogos e não acreditam na escola que é administrada e mantida pelo Estado. O Estado também é administrado por “homens” eleitos pelo povo para governar a favor do povo, mas acabam defendendo seus interesses particulares ignorando as necessidades do povo e deixando as escolas sucateadas.
            O aluno é tão “importante” para o Estado que investe mais em presídios e gasta mais com presidiários do que com os alunos e construção de escolas.
            Muitos professores de escolas estaduais e municipais fazem sacrifícios e matriculam seus filhos em escolas particulares evitando as escolas estatais. Por quê? Porque querem que seus filhos “aprendam mais” e possam ingressar em universidades federais e estaduais. Estão certos, pois também não acreditam na escola que trabalham, porém, são estes professores em conjunto com os governantes e com pais e alunos responsáveis pela boa qualidade da educação e da escola que trabalham, ou lecionam.
            O diretor de escola, muitas vezes matricula os filhos em outras escolas, as particulares. Será que não confia nos professores que dirige, ou na escola que administra? Muitos diretores nem sabem o que acontece na escola de sua responsabilidade, apenas “dirige” sem saber que rumo seguir ou limitam-se a trabalhos burocráticos justificando que se não preencher aqueles papéis os professores ficarão sem salário, ou que a escola não receberá verba para materiais.
            Os professores são muitas vezes os mesmos. Mas os alunos têm objetivos diferentes. Os pais têm objetivos diferentes. A proposta da escola é diferente. Nas escolas particulares o investimento é com o estudo. Os pais cobram resultados, pois estão gastando dinheiro, muitas vezes só exigem que o filho seja promovido para não “perderem” o dinheiro gasto na mensalidade da escola e quando o filho está prestes a “perder o ano”, o pai, “consciente” e benfeitor do filho, transfere a “pobre criança” da escola particular para uma escola estatal na esperança de que consiga “recuperar o ano” o que muitas vezes acontece. Nas escolas estatais, muitos pais – não são todos – entendem que o Estado tem obrigação de equipar a escola e distribuir material didático para os alunos  - e não estão errados - mas não vêem esse gasto como investimento pago por ele através de impostos, portanto, acredita que a escola é “gratuita”, sendo assim, tanto faz se o filho aprender ou não. De qualquer forma, aprendendo ou não, acabam sendo “promovidos”. O problema nem é a “promoção automática”, mas a maneira que está ocorrendo e o resultado prejudicial à sociedade.
Os pais são fundamentais para que a escola funcione bem, pois são eles os principais responsáveis pelo futuro dos filhos, portanto, quanto mais colaborarem para a construção de uma escola melhor, de uma educação pública estatal de qualidade e para uma sociedade mais justa, mais seguros estarão seus filhos e demais herdeiros.
            O problema é educacional, social, ou financeiro? Talvez todos.
            A sociedade forma o cidadão e o educa para a escola. E a educação forma o cidadão, o educa e o prepara para a sociedade.
            Os alunos entram na sala de aula gritando, arrastando mesas e cadeiras. Ma já chegam assim.
            Será que a escola o deixa assim, ou será que em casa ele é assim?


Salas de bate-papo

            Nas salas de aula, superlotadas – aproximadamente quarenta e cinco por sala -, com alunos “falantes”, e é claro que são falantes, pois não são mudos, são falantes e barulhentos, portanto, falam durante a aula o tempo todo, “assistem”, se é que se pode dizer que assistem, aula de costas para o professor, com fone de ouvido no ouvido, celular na mão, baralho, batom, brilho, espelhos, entre outros adereços que compõem o kit aluno.
            Enquanto o professor tenta expor o assunto da aula aos alunos “presentes”, ocupantes de espaço numa sala de aula, outros seres ocupantes de espaço continuam na sala, mas na “sala de bate-papo”.
            As salas de aula já se tornaram salas de bate-papo. Os alunos conversam sobre o assunto que interessa a eles e ignoram a presença do professor. Acreditam que o professor é um intruso que invade o espaço deles, sem pedir licença e atrapalha suas atividades “on-line ou off-line”.
            O barulho, ruído, som produzido pelos alunos dentro de uma sala de aula é prejudicial à saúde do professor e dos próprios alunos. É tão óbvio, porém, ninguém enxerga, digo, ninguém ouve, nem age para acabar com o problema, nem o professor, o mais prejudicado com tanto barulho. Todos acabam se habituando ou ficando surdos que não conseguem ouvir mesmo.
            Os alunos gritam por gritar. Não conversam em tom baixo, suas falas são gritadas. Muitos alunos freqüentam ambientes barulhentos – o mundo está mais barulhento - e precisam gritar para serem ouvidos. Quando estão na sala de aula agem como se estivessem na rua, pois andam pela sala, circulam entre as mesas e se as cadeiras estão na frente é só arrastá-las ou chutá-las provocando aquele som irritante produzido pelo pé da cadeira – de metal - ou da mesa sendo arrastados no piso. Raramente um aluno levanta a cadeira sem arrastá-la para sentar-se. A culpa talvez não seja dos alunos, mas de alguém que não ensinou que é menos barulhento e mais educado mover a cadeira ou a mesa sem produzir aquele barulhão.
            Os freqüentadores das salas de aula, ou seja, os alunos, berram, ouvem música através de aparelhos de MP3, MP4, MP5, celular, Ipod e mesmo quando não pode, assistem vídeos pelo celular ou aparelhos semelhantes, utilizam estes aparelhos barulhentos e batucam nas mesas, dançam na sala no embalo das “danças de rua”, conversam pelo celular com outros colegas de outras salas de aula ou de fora da escola, transferem músicas, imagens, vídeos através do Bluetooth e não estão nem aí com o resto.
            Esse conjunto barulhento agride os ouvidos, ofende a audição. E para complementar, pronunciam palavras chulas durante a gritaria como se fossem versos de uma poesia.
            O professor sente a cabeça doendo, um zumbido incomoda como se fosse um pernilongo dentro da cabeça zumbindo o tempo todo.
            A sensação de perda de audição e equilíbrio, relacionados ao barulho, provocam mal-estar. Essa barulheira acelera o estresse, causa depressão e surdez.  O Estado acaba gastando mais com readaptação de professores. É mais barato investir em mais salas de aula com menos alunos e mais professores com salários melhores do que gastar com tratamento e salários de professores afastados por conseqüência de problemas adquiridos em sala de aula devido o excesso de trabalho para ganhar mais e o número elevado de alunos barulhentos em sala de aula em prédios inadequados para escolas.


Diário de Classe

            Durante um ano letivo vários professores registraram em seus diários de classe no campo de observações, as ocorrências dos alunos durante suas aulas.
            No segundo ano do ensino médio do período noturno os alunos estão barulhentos, conversam, gritam, andam pela sala, entram e saem da sala quando “querem”. Muitos alunos deixam o MP3 ou o celular ligado com músicas barulhentas. Vários aparelhos ligados ao mesmo tempo, cada um com um som diferente e com volume altíssimo. Alguns alunos dançam hip hop na sala como se estivessem num festival de danças de rua.
            No outro dia, com o mesmo professor, na mesma sala, com apenas vinte e três alunos, pois mais da metade da sala havia faltado, o professor fez uma atividade para que os alunos pudessem refletir, discutir e responder algumas questões expondo opiniões pessoais sobre uma determinada situação. Muitos alunos estavam andando pela sala, jogando bolas e aviõezinhos de papel feitos com as atividades. Gritam e vibram por qualquer fato ocorrido na sala, como se estivessem num estádio de futebol gritando:olé! Conversam sobre assuntos banais, banalizando ainda mais temas como sexualidade, namoro, drogas, entre outros assuntos. Também jogam cadernos pela sala sem considerar a presença do professor ou de outros colegas de classe. O descaso é real. O desprezo pela aula é quase total, pois alguns alunos vêm para “estudar”, enquanto outros liberam seus instintos “selvagens, animalescos e infantis”, talvez pensem estar num zoológico.
            Durante uma aula, de outro professor, enquanto um dos alunos fazia a leitura de um texto para ser interpretado e discutido em grupos, os demais alunos conversavam paralelamente à leitura do texto, sobre outros assuntos, alguns estavam quietos ouvindo som de um celular barulhento, algumas meninas, ou moças, já que são maiores de idade, se maquiavam com batom, brilho, se olhavam no espelho – talvez para saber se o espelho está bonito -, penteavam os cabelos – faltou alisar com “chapinha” -, ajeitavam o peito – os seios -, olhavam o bumbum da colega, olhavam para o próprio bumbum – talvez, para comparar os bumbuns -, e ninguém está interessado no assunto lido pelo colega que continua lendo o texto sem se importar com a falta de atenção e o desinteresse dos colegas.
Após alguns meses de aula, sem conseguir êxito com os alunos, depois de algumas advertências verbais e escritas um professor registrou o seguinte em sua caderneta: Hoje os alunos estão mais “calmos”, “Graças a Deus”. Estão copiando um texto para responder quatro questões valendo nota para ajudar na média bimestral. Porém, continuam fazendo algumas piadas sem graça e ouvindo som com celular ligado, mas cada aluno ouve seu próprio aparelho utilizando fones de ouvido. A conversa paralela ainda existe assim como o atraso na entrada da aula. Alguns alunos entram depois de trinta minutos que soou o sinal de entrada. Outros alunos continuam brincando no fundo da sala de aula, “trocando tapas”, correndo pela sala, falando em tom elevado e não fazem as atividades propostas, mesmo sendo para nota.
            Neste caso é importante ressaltar que são alunos com mais de dezoito anos de idade. A maioria trabalha o dia todo e freqüentam a escola à noite. Todos são ou deveriam ser “conscientes” de suas atitudes e das conseqüências que podem acarretar por causa do comportamento inadequado de cada um. São inconseqüentes.
            Mesmo assim, insistem com as brincadeiras, perturbam a aula, provocam e desafiam os professores e a direção da escola. Suas brincadeiras são grosseiras, agressivas, estúpidas, destrutivas, submetem seus colegas que chamam de amigos a humilhações.
            Assim, os professores daquela sala conseguiram “sobreviver” ao longo do ano. Dividindo o sofrimento, as angústias e se unindo para que pudessem se apoiar um no outro e juntos suportarem o peso, a carga pesada e os encargos da Educação.
No último registro do ano um professor escreveu: Hoje os alunos estão lendo um texto distribuído pelo professor. Após a leitura deverão conversar sobre o assunto e apresentar suas conclusões. Alguns alunos estão gritando, incomodando os demais. Batem nas mesas fazendo batuques. Por enquanto estamos na segunda aula da noite, e os alunos permanecem “trabalhando”, com exceção daqueles que continuam brincando. Faltam “somente” três aulas para encerrar o período e o dia. Os alunos perturbadores ligaram o celular e estão dançando, gritando – parece que estão “drogados ou possuídos” -, pronunciando palavras de baixo nível, indesejáveis aos ouvidos educados. A situação permanece quase a mesma, pois a falta de educação e falta de respeito continuam apesar de alguns alunos terem evoluído.
            Em outro diário de classe, de outro professor, está registrado o seguinte: A aluna “Fulana de Tal” do terceiro E, do ensino médio, dezenove anos de idade, bonita, ou seja, de boa aparência, masca chiclete e estoura bolas de chiclé durante a aula. O professor tenta expor o conteúdo da aula e a aluna continua mascando com a boca bem aberta e estourando as bolinhas que irritam qualquer pessoa que tenta se concentrar para ouvir a aula ou ler um texto. Não sei se ela faz isso para chamar a minha atenção ou de outro aluno da sala. Talvez seja carente demais e precise de um pouco de atenção. Infantilidade talvez.  Acredito que ignora as boas maneiras. Ou é maldade mesmo.
            Na mesma sala de aula – 3º E – hoje os alunos estão falantes, agitados, conversando além do “normal”. Parece que o interesse pela escola não existe, se é que existiu. Não é possível que alguém perca o interesse pela escola da noite para o dia. Realmente nunca devem ter se interessado pela escola. É como se freqüentassem a escola apenas por obrigação. Apesar de adultos, todos com mais de dezoito anos, agem como crianças ou adolescentes. Muitos são casados, pais e mães, com filhos freqüentando a mesma escola – em outro período -, mas o comportamento, a disciplina é ignorada por eles que só querem “bater papo” sobre assuntos corriqueiros, fofocas de novelas e dos colegas, contar como foi o dia no trabalho, no clube, na academia, como foi o encontro com o parceiro ou a parceira e até com o amante e atender celular em sala de aula mesmo sabendo que é proibido.
            No período noturno também, numa oitava série do ensino fundamental de Educação para Jovens e Adultos – EJA -, um aluno ateou fogo no latão de lixo durante a aula de uma professora gestante a poucos dias de dar à luz. A chama aumentou rapidamente e atingiu o teto da sala, queimou o forro de PVC e a cortina. Por fim o aluno incendiário jogou o latão com fogo e tudo no pátio da escola. Por sorte não foi pior, pois, poderia ter acabado com uma tragédia. O aluno foi suspenso das aulas por uma semana perdendo avaliações. Depois de uma semana voltou, não pôde realizar as avaliações e ficou sem média bimestral. No final do ano letivo, como tinha freqüência satisfatória e médias “na média” foi aprovado e está apto para freqüentar a série seguinte. Logo estará cursando uma universidade.
            O grande problema disso tudo é que situações como estas estão se tornando corriqueiras e comuns nas escolas. Os alunos, os professores, a direção e a sociedade se acostumam com esses fatos que não assustam mais porque já fazem parte do cotidiano escolar.



O aluno que multiplica

            Uma professora de matemática – em 2007 - propôs aos alunos da quinta série do ensino regular, de uma escola estadual que montassem ou construíssem uma história com os números quarenta e cinco e trinta e cinco. A professora explicou que queria que um número fosse multiplicado por outro. Até então nada complicado para uma professora de matemática. Talvez não seja tão fácil de compreender quando se tem onze anos de idade.
            Todos os alunos da sala realizaram a atividade proposta para aquela aula e entregaram à professora. Certamente nem todos conseguiram atingir o resultado esperado pela professora devido o grau de complicação daquela atividade e principalmente pela dificuldade de se escrever um texto, mas sendo uma professora experiente, sabia que usaria aquela atividade para reconhecer as dificuldades e falhas de seus alunos e aproveitaria para planejar suas aulas com a finalidade de sanar aquela e outras dúvidas.
            Porém, uma atividade chamou a atenção da professora que ficou estarrecida com o fato. O coordenador, a diretora e outros professores da escola ficaram impressionados. Um aluno de treze anos de idade – na quinta série - escreveu o seguinte texto: numa noite “comi” – transou – quarenta e cinco mulheres. Na outra noite comi trinta e cinco mulheres. No total comi mil quatrocentas e setenta e cinco mulheres.
            A professora guardou a atividade para que pudesse pensar junto à coordenação e o corpo docente da escola e então tomar uma atitude. Apesar de engraçada a situação é desgraçada, pois não se sabe se o aluno quis zombar da professora ou se realmente escreveu “inocentemente” aquele texto. Isso não foi possível descobrir porque o aluno abandonou a escola “facilitando” o trabalho da professora que tinha que resolver aquele assunto.
Pelo menos o aluno acertou o processo ou a montagem da multiplicação, mas o resultado está errado, pois se aquele aluno multiplicou quarenta e cinco por trinta e cinco o resultado deve ser mil quinhentas e setenta e cinco – errou por cem – mas como o “fenômeno” transou com quarenta e cinco mulheres numa noite e trinta e cinco noutra, totalizou oitenta mulheres em duas noites.
Mais tarde a professora soube que aquele aluno estava trabalhando num lava - rápido como lavador de carros.


“Selva de aula” ou sala de aula?
           
Numa escola estadual no ano de 2007, no período noturno em uma sala de aula do segundo ano do ensino médio, composta por cinqüenta e três alunos, um deles saiu da sala de aula descaradamente sem que o professor percebesse, atravessou engatinhando, ou seja, “de quatro”, um corredor de trinta metros de comprimento, para fugir da escola. O motivo não foi apurado, tudo indica que aluno apenas queria ir embora.
Talvez a aula fosse sobre táticas de guerra ou sobrevivência na “selva de aula”, digo, na sala de aula. Mas era de Inglês, ministrada por uma bela e jovem professora.
Ao passar rastejando por baixo do balcão da secretaria, faltando apenas três metros para completar a fuga – o aluno conseguiu rastejar vinte e sete metros sem ser percebido -, a professora que estava na sala ao notar a ausência do aluno fugitivo saiu da sala e avistando o fujão gritou despertando a atenção de todos que estavam na escola. A diretora imediatamente rumou na direção do grito e “deu de cara” com a “ovelha desgarrada” tentando fugir do rebanho. Como boa pastora, percebendo o ocorrido, a diretora advertiu verbalmente o aluno, fez com que ele voltasse para a sala, “de quatro”, e se esborrachou de rir, afinal a cena é hilária.
Na mesma escola uma aluna da sétima série do ensino fundamental, no período da tarde, ousou desafiar a paciência de outro professor e decidiu correr pela sala de aula durante uma avaliação de história. Depois foi “consultar” as repostas dos colegas. Ao ser advertida pelo professor respondeu estava apenas conferindo as avaliações com os colegas da sala, queria comparar as respostas.
Situações como estas ocorrem diariamente em escolas estatais e particulares. A falta de respeito dos alunos tratando os professores como se fossem “coleguinhas” vem aumentando. Estes alunos ficam impunes - como muita coisa que ocorre no Brasil – e se fortalecem cada vez mais.
A falta de respeito não é só com professores, é também com os próprios pais. Às vezes parece que os jovens “respeitam e temem” mais os professores que os pais.
Muitos alunos e muitos indivíduos na sociedade falam de Deus, paz, amor, dizem que “somos todos irmãos e filhos de Deus”, na Igreja são alegres, se abraçam, sorriam, sonham com um mundo melhor. Mas ao chegar em casa tratam os pais como se fossem lixo. Na escola tratam os professores como se fosse lixo.
De que adianta nesses casos, fazer citações bíblicas, declarar lindas palavras de amor a estranhos e em casa e na escola agir como delinqüente?
O que esperar do Mundo, da Vida, da Educação? Nada? Somos e conseguimos aquilo que esperamos e desejamos. Se não esperamos nada do Mundo, da Vida, da Educação, não teremos nada.
Se não esperamos nada, corremos o risco de sermos devorados na selva de aula. Mas se esperamos algo temos a chance de sobreviver na selva e chegar à sala de aula com vida.



Quem agüenta?

Que professor agüenta o descaso de pais que reclamam que trabalham e não tem tempo para perder com a indisciplina dos filhos dizendo que é problema da escola? Alguns pais atribuem a responsabilidade ao professor, afinal, segundo alguns pais, é o professor a autoridade na sala de aula. Portanto, resolva.
Em 2008 a diretora de uma escola telefonou para o pai de um aluno que havia desacatado gravemente um professor após ter perturbado durante a aula inteira os colegas da classe. O aluno já era “cliente” da direção, pois, causava “problemas” o tempo todo, em todas as aulas, todo dia, com todos os professores, o ano inteiro, há vários anos. O pai ouviu a queixa da diretora, resmungou e respondeu que não podia ser incomodado naquele momento porque estava trabalhando. A diretora respondeu ao pai que ela e seus professores também estavam trabalhando e que o filho dele estava atrapalhando o trabalho docente e decente daquela escola.
Há pessoas grotescas em todo lugar, até na escola, instituição de educação. Houve casos de inspetores de alunos que ordenaram aos professores que mantivessem os alunos dentro da sala, pois estavam circulando muito pelo corredor. Há funcionários que entram na sala de aula sem bater na porta nem pedir licença, chamam a atenção do professor perante os alunos e saem batendo a porta. Sem exagero situações como estas ocorrem em escolas.
Durante um HTPC, um coordenador desacatou os professores, chamando-os de incompetentes, incapazes e exigiu que mantivessem a “ordem” na sala de aula, pois já não agüentava mais reclamações de professores, alunos e pais de alunos.
Tem diretor de escola que ameaça os professores com advertências. Hoje a moda é “avaliar” o professor durante o período de estágio probatório. Dizem que se não “tomarem conta” dos alunos serão advertidos, pois é o professor quem manda na sala aula. Mas na hora de impor uma ordem, ignora a autoridade do professor na sala e age autoritariamente contradizendo a fala anterior.
Há também professores que criticam, fofocam, destratam os colegas de trabalho e os alunos. Há professores grosseiros que ofendem, desacatam, agridem verbalmente e até fisicamente, colegas de trabalho e alunos.
Muitos professores são tão “neuróticos” que “vivem” sob efeito de medicamento forte contra estresse e depressão. Muitos recorrem a remédios controlados sem orientação médica. Como conseguem esse material não é difícil descobrir.
Não são todos, mas se observarmos o comportamento dos professores numa festa, numa reunião, num htpc, o assunto é sempre o mesmo: aluno. Com tantos assuntos alegres, divertidos, interessantes, o professor conversa com um colega de trabalho sobre alunos, criticam diretoras, secretárias de educação, decretos do governador, propostas pedagógicas, greve, paralisação.
No htpc, entre os colegas, alguns com mais experiência outros com menos, com tanta oportunidade de trocar idéias para enriquecer o conhecimento, muitos acabam discutindo sobre o mocinho ou a vilã da novela ou quem será o vencedor do prêmio do BBB – Big Brother Brasil.
A minoria dos professores são neuróticos, agressivos e dependentes de medicamentos antidepressivos. Sinal que nem tudo está perdido, afinal, a maioria é “normal”, espero.
Se esta situação se inverter, quem agüenta?
          


Quanto mais leciono...
Mais amo minha família!

Muitos professores se desgastam tanto em sala de aula devido ao comportamento dos educandos que chegam a proferir que cada aula que “sofrem” buscam a cura no aconchego do lar. Um professor disse que quanto mais entra numa sala de aula mais ama sua família.
É confortante acreditar que a família do professor seja a cura para seu sofrimento, é sinal que há salvação, pelo menos para o professor.
Porém, infelizmente, a família também sofre porque o professor não suporta a carga do trabalho e descarrega também em casa, na família.
É lamentável ouvir isso, mas é a realidade da Educação brasileira. Os profissionais da educação estão cada vez mais desgastados, estressados e com depressão. Alguns sofrem o pânico da sala de aula. A profissão do professor se tornou um trabalho muito difícil por causa dos problemas que agravaram a educação.
Dizer que lecionar é um sacrifício, um sofrimento, tarefa árdua, significa que algo está errado, ou muitas coisas estão erradas. Talvez os professores não estejam preparados psicologicamente, como é mais fácil e comum se dizer. Talvez o sistema educacional esteja ultrapassado. Acredito que a Secretaria de Educação está cobrando algo dos professores que está além de suas competências. Os profissionais que trabalham em gabinetes não conhecem a realidade da Educação. São profissionais que nunca pisaram numa sala de aula de uma escola estatal ou se pisaram se esqueceram que ela existe.
Para os burocratas é interessante que fique comprovado que não é preciso professor para que o aluno aprenda. Basta um monitor, já que é um trabalho depressivo e causa tanta despesa para o estado.
Se a educação estatal se acabar, se a escola convencional se acabar, o que os professores farão?
Com a Educação a Distância e a escola em decadência quem serão os professores?
Imagine que o Estado feche as escolas. Economiza com manutenção de prédios, água, iluminação, merenda. Os professores e funcionários são exonerados. Economizam com salários, férias, décimo terceiro, bônus, licenças médicas. O Estado evita problemas com violência nas escolas e depredação de prédios. Então o governo implanta a Educação à Distância a partir do primeiro ano do ensino fundamental até o ensino superior. Parece loucura, alucinação. Pouco tempo atrás, era absurdo dizer que um dia existiriam faculdades à distância, hoje é realidade. Basta o Estado concentrar tudo num prédio, instalar uma central de computadores conectados à internet, alguns monitores transmitindo atividades e pronto. Sem sair de casa, o aluno “estuda”, é “avaliado”, “aprovado” e pronto. Acabam os problemas com professores, greves, paralisações e dores de cabeço para os governantes. Os professores então terão mais tempo para suas famílias.


Onde está o problema da escola?

Serão os professores? Talvez estejam mal preparados, mas se for apenas isso basta um melhor preparo, cursos de capacitação.
Pode ser que o problema esteja na falta de interesse dos alunos, então como fazer para que o aluno passe a se interessar pelas aulas e pela escola?
Talvez não exista um problema, pode ser apenas uma fase de mudança, de transição e adaptação da sociedade que inevitavelmente reflete na escola.
É difícil aceitar mudanças. Elas provocam instabilidade e medo. Porém, as mudanças fazem parte da dinâmica da sociedade. Mudanças sempre foram e sempre serão vitais para a humanidade, pois permitem o aperfeiçoamento e o conhecimento. Algumas “espécies” desaparecem, surgem outras. Algumas profissões são extintas, outras entram em cena.
Apesar de existir professores mal preparados, funcionários incompetentes, diretores que não dirigem nada, secretários de educação que não entendem nada de educação, a educação está resistindo e sobrevivendo – claro que não são todos, a maioria é competente – o problema é político.     Enquanto a educação continuar sendo administrada por pessoas que não têm competência e que nunca pisaram numa sala de aula, as escolas continuarão sendo alvo de políticos preocupados apenas com a verba da educação.
O problema da escola e da educação estatal brasileira é que prefeitos, governadores, “empregam” parentes, amigos que não entendem nada de educação e “deixam rolar”. Os governadores querem provar que seu Estado é melhor que os outros. Contrata um profissional para dirigir a Secretaria de Educação de Estado. O Secretário pode ser bem intencionado, atingir metas exigidas pelo governador, mas não entende que não basta estalar os dedos e assinar papéis.
Os prefeitos municipalizam o ensino. Recebem verba para investir na Educação Municipal. Contratam parentes e amigos, ignorando os concursos públicos. Escancaradamente emprega a prima, a tia, a sobrinha, a cunhada, a amiga. Distribui em cargos de confiança. Estes profissionais não questionam a precariedade das escolas porque são parentes e ocupam cargos, estão empregados. Depois, trabalham como cabos-eleitorais para o “chefão”.
Isso tudo provoca estagnação, corrupção, imoralidade, descaso, irresponsabilidade, falta de compromisso com a população.
Para resolver o problema, é preciso que os cargos administrativos como secretarias de educação, sejam ocupados por quem conhece a realidade das escolas estatais brasileiras, o professor.


O professor é babá, pai e mãe eventual.

Muitos alunos fazem apenas a refeição que a escola oferece, no caso de escolas de ensino fundamental onde as prefeituras ou o Estado mantém a merenda. Alguns alunos levam a comida que sobra da merenda para casa, para que os pais e os irmãos – geralmente são muitos irmãos - também possam se alimentar.
A escola não deveria substituir a Assistência Social, mas diante de uma situação como essa, não pode deixar de sensibilizar-se e ajudar as famílias dos alunos carentes.
O Estado tem obrigação de dar mais condições à população para que esta possa se alimentar melhor sem necessitar de “esmolas” através da política do “Pão e Circo”.
Apesar de existirem os “auxílios” do Estado à população carente, não é suficiente nem digna a forma de assistência utilizada pelo governo para atender as pessoas mais necessitadas.
Os problemas sociais são tantos que a população muitas vezes busca apoio na escola e nos professores para solucionar alguns problemas: jovens viciados em drogas e envolvidos em furtos, roubos, assaltos. Meninas grávidas que não querem falar com os pais, pais alcoólatras que espancam e abusam sexualmente dos filhos. Pais que se separam e os filhos ficam “perturbados”. Alunos que não podem comprar uniforme e material escolar porque os pais estão desempregados. São tantos casos que seria preciso outro livro só para esses problemas.
Com isso o professor acaba sempre atendendo alunos e pais de alunos como se fosse um psicólogo, terapeuta ou profissional contratado apenas para que a população possa se desabafar.
São muitos os alunos que preferem conversar com o professor sobre um problema particular por temer a reação dos pais. Como o professor pode negar ouvir um aluno ou pais com problemas?
O professor não pode e não deve tentar resolver os problemas pessoais dos alunos e de sua família, para cada situação existe um órgão governamental competente e responsável para isso, mas é sempre o professor que acaba filtrando essas informações ou até se envolvendo com elas.
Muitos alunos respeitam mais os professores que os próprios pais. Por um lado o professor pode se sentir honrado, por outro, isso é perigoso, pois diminui a boa relação entre pais e filhos e aumenta a responsabilidade do professor que acaba sendo babá, pai e mãe eventual.


Afinal, o que é educação e qual sua finalidade?

Acredito na Educação que transcende seus objetivos. O professor precisa estar além de suas funções. Não basta esperar que a sociedade mude, ou que Secretárias de Educação operem milagres para transformar a escola. A Educação deve ser capaz de transformar a humanidade antes que ambas entrem em extinção. Não falo da extinção da espécie, mas da sensibilidade, da sabedoria, do conhecimento, da “humanidade” que está deixando de ser humana.
Não acredito na Educação atual que está em “queda livre” acompanhando a decadência da sociedade. Esta Educação está servindo de balcão de negócios nas mãos de governantes sem compromisso com o povo. Não acredito na Educação que serve aos interesses da “elite dominante” do país escravizando os pobres empobrecendo-os mais ainda.
Acredito na Educação que liberta, que promove a paz e o amor, que une nações e povos. Não precisamos de homens cultos e “inteligentes” formados para construir bombas poderosas, armas para matar a humanidade, sistemas político-econômicos que escravizam, oprimem, estupidificam os humanos. Precisamos de uma Educação e de homens que estudem para derrotarem a fome, a miséria, a dor, o sofrimento, as doenças sem cura. Precisamos de homens capazes de promover a alegria, a justiça, o conforto, a “felicidade”.
A mudança só poderá ocorrer e só será possível se os professores superarem esses obstáculos e lutarem pela independência da escola, para se livrar da politicagem sem vergonha, mesquinha de muitos governantes hipócritas, medíocres e demagogos que corrompem a Educação.
A Educação caminha para a libertação do homem, mas é preciso transcender a prática educacional. É necessário transformar e aceitar que a Educação é a velha e nova “Religião Universal” capaz de revolucionar o homem, libertá-lo de suas limitações, religá-lo ao “Deus Pessoal” e transcender os limites humanos.
Afinal, Educação é a revelação do futuro e sua função é preparar o sujeito para que seja capaz de transformar o mundo num lugar melhor onde possamos viver em paz.


Considerações finais

O maior responsável pela escola estar precária e o professor estar desqualificado pela sociedade é o próprio professor. Por permitir que o que fizeram até hoje. Foi o professor quem permitiu e aceitou ser rebaixado pelo governo e pela sociedade. Foi o professor quem abaixou a cabeça quando deveria questionar, reivindicar, exigir, lutar, gritar, berrar.
Portanto, a responsabilidade e a obrigação de mudar a educação para melhor e resgatar o respeito é do professor.
Enfim, sonhamos com a escola de que falamos, mas pisamos na escola de que sofremos.
Nem tudo está perdido, afinal, a missão é mudar esse “Quadro Negro” para que sirva de exemplo, fonte de informações e símbolo de um passado que se preocupou com o futuro e fez seu alicerce no presente.


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