segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

“Selva de aula” ou sala de aula?


Numa escola estadual no ano de 2007, no período noturno em uma sala de aula do segundo ano do ensino médio, composta por cinqüenta e três alunos, um deles saiu da sala de aula descaradamente sem que o professor percebesse, atravessou engatinhando, ou seja, “de quatro”, um corredor de trinta metros de comprimento, para fugir da escola. O motivo não foi apurado, tudo indica que aluno apenas queria ir embora.
Talvez a aula fosse sobre táticas de guerra ou sobrevivência na “selva de aula”, digo, na sala de aula. Mas era de Inglês, ministrada por uma bela e jovem professora.
Ao passar rastejando por baixo do balcão da secretaria, faltando apenas três metros para completar a fuga – o aluno conseguiu rastejar vinte e sete metros sem ser percebido -, a professora que estava na sala ao notar a ausência do aluno fugitivo saiu da sala e avistando o fujão gritou despertando a atenção de todos que estavam na escola. A diretora imediatamente rumou na direção do grito e “deu de cara” com a “ovelha desgarrada” tentando fugir do rebanho. Como boa pastora, percebendo o ocorrido, a diretora advertiu verbalmente o aluno, fez com que ele voltasse para a sala, “de quatro”, e se esborrachou de rir, afinal a cena é hilária.
Na mesma escola uma aluna da sétima série do ensino fundamental, no período da tarde, ousou desafiar a paciência de outro professor e decidiu correr pela sala de aula durante uma avaliação de história. Depois foi “consultar” as repostas dos colegas. Ao ser advertida pelo professor respondeu estava apenas conferindo as avaliações com os colegas da sala, queria comparar as respostas.
Situações como estas ocorrem diariamente em escolas estatais e particulares. A falta de respeito dos alunos tratando os professores como se fossem “coleguinhas” vem aumentando. Estes alunos ficam impunes - como muita coisa que ocorre no Brasil – e se fortalecem cada vez mais.
A falta de respeito não é só com professores, é também com os próprios pais. Às vezes parece que os jovens “respeitam e temem” mais os professores que os pais.
Muitos alunos e muitos indivíduos na sociedade falam de Deus, paz, amor, dizem que “somos todos irmãos e filhos de Deus”, na Igreja são alegres, se abraçam, sorriam, sonham com um mundo melhor. Mas ao chegar em casa tratam os pais como se fossem lixo. Na escola tratam os professores como se fosse lixo.
De que adianta nesses casos, fazer citações bíblicas, declarar lindas palavras de amor a estranhos e em casa e na escola agir como delinqüente?
O que esperar do Mundo, da Vida, da Educação? Nada? Somos e conseguimos aquilo que esperamos e desejamos. Se não esperamos nada do Mundo, da Vida, da Educação, não teremos nada.
Se não esperamos nada, corremos o risco de sermos devorados na selva de aula. Mas se esperamos algo temos a chance de sobreviver na selva e chegar à sala de aula com vida.





(Volpone de Souza, O Quadro Negro da Educação, ABR, 2009)

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